Este verão deu-se um raro acontecimento na preparação para o campeonato português: os “três grandes” fizeram enormes investimentos no mercado em avançados. Jogadores muito diferentes, oriundos de contextos distintos, com justificações diversas para a sua chegada, mas todos com um objectivo claro, ser parte integral do ataque da sua equipa na luta pelo título da Liga NOS em 2019/20. Vamos então analisar Raúl de Tomás, Zé Luís e Luciano Vietto, e como poderão estes encaixar nas estruturas de Benfica, Porto e Sporting, respectivamente.

Este exercício começa pelo espanhol, que chegou recentemente ao campeão nacional Benfica, tornando-se na segunda contratação mais cara da história do clube – curiosamente só atrás de outro avançado que chegou de Madrid, Raúl Jiménez. O espanhol vem de três épocas goleadoras consecutivas, sempre emprestado pelo Real Madrid: 14 golos pelo Valladolid no segundo escalão em 2016/17, de seguida 24 para ajudar o Rayo Vallecano a subir à primeira divisão e, na última temporada, voltou a facturar por 14 vezes, mas já na La Liga. A saída de João Félix abriu uma vaga no ataque “encarnado”, mas ainda não é claro se De Tomás vai ocupar o lugar de segundo avançado deixado pelo jovem português ou se vai competir com Seferovic para o lugar de ponta-de-lança mais clássico no 4-4-2 de Bruno Lage. Clara é a principal característica de “RdT”: trata-se de um rematador nato, de onde for, contra quem for, pelo que o espanhol vai ser um dos jogadores com disparo mais fácil na Liga NOS.

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Os seus 3,7 remates por 90 minutos são números ligeiramente superiores aos de Seferovic e Félix e tornam-se num volume ainda mais impressionante quando temos em conta que não só jogava num campeonato de nível superior, como o fazia na equipa que acabou no último lugar da tabela. Raúl cria ainda muito perigo de meia-distância, com muitos (1,1) e bons (41% enquadrados) disparos. É assim natural que, por cá, com todas as diferenças de contexto e do “serviço” que terá a seu dispor, a quantidade de remates de fora-de-área caia um pouco, por troca com um maior aproveitamento de oportunidades na área – já somava uma quantidade muito boa de ocasiões flagrantes (0,8) – pelo que De Tomás tem tudo para ser um perigo autêntico em frente às balizas portuguesas.

Não sendo o avançado fisicamente mais poderoso que o Benfica contratou nesta janela – já que também se deu a chagada de Jhonder Cádiz –, mantém uma boa quantidade de remates de cabeça (0,8) e ganha muito mais duelos aéreos dentro (59%) do que fora de área (33%). Com boa capacidade de movimentação na área adversária, este não é, de todo, um ponto fraco do seu jogo.

Naturalmente, era um avançado que tocava na bola com menor frequência do que qualquer um de um “grande” em Portugal, mas mostra-se um jogador bastante evoluído tecnicamente: seguro no passe (78% eficácia de passe no meio-campo contrário), completa muitos dribles (1,5). Sempre que recebia a bola já tinha os olhos colocados na baliza adversária e estava pronto para assumir riscos e fazer algo acontecer. Por cá terá mais soluções, um papel mais específico em campo e menos responsabilidade de carregar a equipa às costas.

A maior questão à volta de “RdT” tem que ver com a sua falta de capacidade de criação. Com apenas 0,6 passes para finalização de bola corrida, menos de metade do que produziram Félix e Seferovic, mostra ser um jogador algo individualista e com pouca tendência para o último passe, o que dificilmente resulturá bem no papel de segundo avançado. O espanhol parece ter tudo para resultar melhor na posição do suíço, e não na de João Félix.

Zé Luís, que nem uma luva

Zé Luís chega ao FC Porto oriundo do Spartak de Moscovo a troco de €8,5M (mais €2M do que os Russos tinham pago ao SC Braga em 2015), após a sua época com mais minutos (1892) e com mais golos marcados (10) no campeonato. Numa Liga com menos minutos para disputar – composta por apenas 30 jogos comparativamente a 34 da Liga NOS ou 38 da La Liga – e na qual o cabo-verdiano teve sempre competição interna de qualidade (Luiz Adriano e Promes, principalmente), Zé Luís lidou ainda com bastantes lesões que lhe foram cortando tempo de jogo. Sai da Rússia com apenas 25 golos divididos ao longo de quatro temporadas, mas com muitos pontos de interesse noutros momentos do jogo.

Com 1,84m e uma imponente estampa física, enquadra-se claramente nos padrões de jogo de Sérgio Conceição. O atacante vence 50% dos duelos aéreos ofensivos, destacando-se bem mais do que Soares, e soma 0,8 remates de cabeça (quase 50% dos 1,7 que faz dentro da área) – sendo particularmente bom a enquadrá-los (47%). É mesmo nesta capacidade de finalização que se destaca sobre os homens que têm vindo a comandar a linha da frente portista.

GoalPoint-Zé_Luís_2018_vs_Tiquinho_Soares_2018-infog
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O internacional por Cabo Verde converte 50% das suas ocasiões flagrantes, muito mais que os 33% de Marega, e enquadra 43% dos remates na grande área, bem acima dos 34% de Soares. Zé Luís acabou por ter um volume de oportunidades bastante menor que os avançados portistas, também pelo contexto em que se inseria: o FC Porto acabou a época com uma média de 11,7 remates na área por partida, o Spartak com apenas 6,9. Se os “dragões” mantiverem a sua produção ofensiva, um avançado como Zé Luís poderá retribuir com bem mais do que Soares ou Marega.

Zé Luís assemelha-se a Marega por ser um jogador que avança muitas vezes para situação de um-para-um (2,2 tentativas de drible), sem particular sucesso (40%), mas acaba por conseguir com muita frequência utilizar o corpo para ganhar faltas (2,1) e muitas delas em zonas de perigo (0,8 faltas ganhas no último terço).

No entanto, volta a distanciar-se das restantes opções “azuis-e-brancas” no que toca à capacidade de ligação de jogo e criação. Zé Luís regressa a Portugal mais evoluído tecnicamente e com maior capacidade associativa. Os seus 1,5 passes para finalização, só foram atingidos na última temporada em Portugal por um avançado: João Félix. É claro que são não habitualmente passes em ruptura a partir de posições recuadas, mas sim passes para finalização através de movimentos de apoio e combinações simples, mas é uma característica em que irá trazer algo de diferente para Conceição.

Não sendo ainda oficial a saída de Marega ou Soares, parece plausível pelo menos uma das duas num futuro próximo. Zé Luís acaba por não ser uma transferência particularmente inspiradora sob o olhar de muitos adeptos pelo elevado custo e pela idade do jogador, mas há uma clara valorização da experiência por parte de Sérgio Conceição e, pelo menos a curto prazo, Zé Luís tem tudo para ser uma enorme mais-valia no plantel dos “dragões”.

Vietto, versatilidade para Keizer

Por fim, Luciano Vietto, argentino que acaba por chegar ao Sporting por intermédio do negócio de Gelson Martins e que tem visto a sua carreira a complicar-se ao longo das últimas temporadas. Após uma época com 18 golos e seis assistências entre La Liga e Europa League pelo Villarreal, quadriplicou o seu valor e conseguiu o salto para o Atlético de Madrid, onde não se afirmou. Após diversos empréstimos onde não se afirmou, incluindo no Fulham, na última temporada, chega a Lisboa com “ganas” de revitalizar a carreira.

Completamente diferente dos avançados contratados pelos rivais, Vietto é muito mais móvel do que um “9” clássico e traz ainda a versatilidade de poder ocupar diversas posições. No 4-3-3 leonino da última temporada poderá jogar a procurar zonas de finalização a partir de um corredor – como fez no Fulham na última época – ou oferecendo algo completamente diferente de Bas Dost ou Luiz Phellype como homem mais adiantado. Uma possível mudança de sistema para algo mais próximo de um 4-4-2 poderá oferecer-lhe um papel de segundo avançado que aparenta encaixar bem com as suas características.

GoalPoint-Luciano_Vietto_2018_vs_Lucian
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Para um atacante que está há tanto tempo com má relação com os golos – apenas três nas últimas duas épocas –, continua com um processo interessante na busca pelos mesmos. Os seus 2,2 remates por 90 minutos e, em particular, os seus 1,6 remates na área são de particular interesse tendo em conta que jogou exclusivamente pelo corredor – ainda para mais pelo direito, a partir do qual tem menos facilidade em procurar movimentos interiores – e numa das piores e menos consistentes equipas da Premier League.

Com o domínio natural do Sporting sobre grande parte dos adversários e a possível mudança para o corredor central (ou, pelo menos, para o corredor esquerdo), este novo contexto poderá ser a chave para, finalmente, aumentar a sua produção ofensiva, até por ser um jogador com colocação de remate bastante interessante.

O seu destaque, se assim lhe podemos chamar, em Inglaterra terá sido terminar com quatro assistências em menos de 1000 minutos jogados, algo muito bem suportado pelos seus 2,0 passes para finalização de bola corrida por 90. Nenhum jogador do Sporting criou tanto na última temporada de bola corrida, e se é certo que as aparições a partir do banco ajudam à inflação nesse número, este é também um indicador de algo que por cá poderemos ver com maior frequência.

Este novo possível produtor de oportunidades, após uma época em que era francamente dependente de Bruno Fernandes nesse capítulo, poderá ser extremamente importante para o Sporting. Trata-se de um jogador que gosta de ter bola e de se ligar aos diferentes sectores, e mesmo quando cai no corredor acaba por manter alta eficácia em situações de cruzamento (42%), mostrando ao mesmo tempo qualidade técnica e agilidade em situações de um-para-um (1,5 dribles eficazes).

O grande dilema de Keizer será saber onde encaixar Vietto tacticamente e como trabalhar o factor psicológico para o recuperar após várias temporadas falhadas, mas o argentino tem tudo para ser uma mais valia pela clara diferença de características que tem em relação aos outros elementos do plantel. Outro dos seus números de destaque é o grande volume de acções defensivas em zonas adiantadas (1,9 por jogo nos últimos dois terços do campo), algo que, como se sabe, Marcel Keizer valoriza bastante pela importância que dá à pressão alta.

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Sendo que as diferenças têm vindo a ser marcadas do início ao fim desta peça, algo que este trio de jogadores tem em comum acaba por ser a grande possibilidade de se tornarem valores acrescentados a curto prazo para os seus novos clubes. Vêm todos de contextos muito competitivos e trazem sangue novo aos ataques dos “três grandes”, na perene luta pelo título.