Reforços | St. Juste, um TGV para a defesa leonina 🚅

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No passado dia 11 de Maio o Sporting anunciou o primeiro reforço para a temporada 2022/23 que se avizinha. Trata-se de Jeremiah St. Juste, defesa-central que aterrou em Alvalade proveniente do Mainz, custou €9,5M – numa transacção que poderá atingir os €12M mediante o cumprimento de objectivos no valor de até 2,5 milhões – e que traz na bagagem o carimbo de defensor mais caro da história do conjunto leonino.

Aos 25 anos, o neerlandês foi uma escolha com a chancela de Rúben Amorim e deverá ser uma das três peças da linha de três defesas, descaindo sobre a direita, fazendo companhia ao líbero e capitão Sebastián Coates e a Gonçalo Inácio, que passará, possivelmente, a actuar no lado canhoto. A estampa física – 1,86m e 76kg – é um dos principais cartões de visita do novo elemento “verde-e branco”, que ainda se destaca pela velocidade – chegou a ser considerado o jogador mais veloz da Bundesliga 2020/21  -, aliando a isso outras qualidades e defeitos que iremos detalhar com a ajuda dos nossos analytics e a apreciação GoalPoint Pro, bem como com o olho clínico do comentador Tomás da Cunha.

“Um potencial físico fora de série”
Tomás da Cunha, analista e comentador

“É um jogador com experiência de Bundesliga, que tem, sobretudo, um potencial físico e técnico que poderá trazer uma grande mais-valia para o Sporting. À partida vai jogar do lado direito e a equipa não tinha uma opção muito natural para essa zona do trio defensivo, porque vinha jogando ou Gonçalo Inácio, que acaba por ficar um pouco condicionado actuando sobre a direita, ou Luís Neto, que já está numa fase muito adiantada da carreira e nem sempre deu garantias. Inácio poderá jogar mais sobre a esquerda, lutando com Matheus Reis por esse lugar”, começa por explicar Tomás da Cunha à GoalPoint.

E o que poderemos esperar do antigo jogador do Heerenveen,  Feyenoord e Mainz, que contabiliza nove internacionalizações pelos sub-21 dos Países Baixos?

“St. Juste tem um potencial físico fora de série para a Liga portuguesa e mesmo para um central, não é normal vermos um jogador tão rápido e tão atlético para cobrir o espaço nas costas. Essa é uma vantagem que contrasta, por exemplo, com Neto, que já tem algumas dificuldades nesse sentido e o holandês é uma mota, muito atlético, confortável a jogar longe da grande área e terá sido também por aí que Rúben Amorim quis trazê-lo. Não é o jogador mais fiável do ponto de vista do posicionamento, é até algo caótico, procura sempre antecipar, nem sempre é muito rigoroso a colocar-se em linha, mas creio que Amorim, com o conhecimento que consegue transmitir aos centrais em termos defensivos, pode trabalhar o jogador nesse sentido e depois aproveitar as tais outras características, sendo também forte nos duelos e com qualidades técnicas. Em comparação com Neto, é um jogador que pode dar muito mais saída em condução, tem muito à-vontade em levar a bola para o ataque, à semelhança daquilo que faz Matheus Reis no lado esquerdo, e nesse sentido o Sporting pode crescer bastante na fase da construção e no controlo da profundidade, no espaço nas costas, o que é sempre uma vantagem para uma equipa que quer ser pressionante e jogar longe da grande área”, concretiza.

[ Heatmap e mapa de acções com bola de St. Juste na Bundesliga 20/21 ]

Na última temporada em que jogou regularmente, em 2020/21 – antes de as lesões limitarem fortemente a sua utilização -, St. Juste mostrou claramente todas as suas características, como se pode confirmar nos mapas acima, onde o seu posicionamento, mais encostado ao lado direito e muitas vezes colado à linha, é a sua imagem de marca.

“Um reforço seguro para o Sporting”

Após ter feito 60 jogos oficiais nas primeiras duas épocas no Mainz, proveniente do Feyenoord, a ascensão do defensor foi travada pelos ombros, primeiro o direito e depois o esquerdo. Duas cirurgias que o levaram a “encostar às boxes” e a realizar apenas nove partidas na última temporada na Liga germânica. Caso esteja a 100% em termos físicos, o neerlandês será um “upgrade” à linha defensiva dos vice-campeões nacionais.

“Creio que é um reforço seguro para o Sporting, não há aqui muita margem para errar, isto acreditando que esteja longe das lesões. St. Juste será um jogador para actuar de imediato e para pegar com algum destaque”, observa Tomás da Cunha.

“Imagino que Rúben Amorim esteja convicto da decisão que tomou, temos visto isso ao longo do tempo, com jogadores que têm uma integração relativamente fácil, pode não ser no imediato, mas acabam por ter sempre peso na equipa – Ugarte, é um belo exemplo. St. Juste não é um jogador para ir entrando aos poucos, é um atleta de quem o Sporting espera que possa pegar de imediato e tem esse potencial. É um jogador com experiência numa grande Liga, tem condições raras para se adaptar ao futebol português e Rúben Amorim é também um treinador que em termos de posicionamento e coordenação da linha defensiva tem, de facto, mostrado muitos atributos, é um dos pontos fortes do ponto de vista táctico em relação ao treinador do Sporting”, acrescenta o analista da Eleven Sports, TSF e colunista da Tribuna Expresso.

Conhecido por ser um detalhista, Rúben Amorim poderá “burilar” algumas lacunas que o defesa tem, principalmente na precipitação que denota na abordagem a alguns lances.

“É um jogador que confia bastante no físico, também porque tem essas qualidades, por vezes quer ganhar a bola logo à primeira, tem tendência para antecipar, não é muito de ficar na contenção, e acho que é esse ‘timing’ que Rúben Amorim poderá trabalhar com ele, também a nível posicional numa defesa com três centrais”, faz notar Tomás da Cunha.

Em 2020/21, ao serviço do Mainz, o neerlandês foi, entre jogadores com mais de 1530 minutos de utilização (50% do total possível), o quinto central com melhor média de desarmes (2,0) na Bundesliga, registando a mesma média de intercepções, o nono mais alto, mas a pouca distância do líder Mats Hummels (2,3), e foi o quarto em acções defensivas no terço intermédio (1,9), demonstrativo da sua apetência para arriscar nas tarefas defensivas. Números que levantam um pouco o véu do que esperar do central.

St. Juste joga preferencialmente como central do lado direito – no início da carreira chegou a ser utilizado como lateral – e chega com galões para apetrechar o sector defensivo leonino. Numa espécie de “análise SWOT”, podemos resumir o jogador como:

  • Forte fisicamente;
  • Veloz a “comer” metros;
  • Forte na progressão;
  • Preciso na primeira fase de construção.

A melhorar: o timing nos momentos de antecipação e na leitura dos momentos de desarme;

A apreciaçãoGoalPointPro-trim2

Pelos valores envolvidos (€9,5M por 90% do passe) e até pelo timing e antecipação da contratação, o plano para St. Juste parece ser bem claro: vem para ser titular. O lugar para si reservado dever ser o lado direito da linha de três centrais, habitualmente ocupado por Gonçalo Inácio, com o português a passar para o lado esquerdo, mais natural para as suas características tendo em conta que é canhoto.

Inácio foi durante algum tempo a solução encontrada para o lugar, tendo em conta a exigível velocidade para fazer as coberturas ao muito ofensivo Pedro Porro em momentos de transição defensiva. Ora, St. Juste tem na velocidade uma das suas principais características. O neerlandês chegou mesmo a ser considerado o jogador mais rápido da Bundesliga, depois de ter registado um sprint a 36,6 km/h.

Outra das principais qualidades de St. Juste, e algo em que Gonçalo Inácio também se destaca, são as acções de condução de bola. O neerlandês regista uma média de 1,1 conduções aproximativas a cada 90 minutos, contra 1,3 de Inácio, sendo que, no caso do novo reforço, 33% das mesmas são em velocidade, e no caso de Inácio apenas 10%. Portanto, não é só a correr para trás que St. Juste é forte, o neerlandês também usa habitualmente a velocidade para subir no terreno com bola e combina isso com uma média considerável de dribles eficazes (0,6 / 90m) para central. Importa recordar que no Feyenoord, equipa onde se destacou antes de ir para o Mainz, até era mais vezes utilizado como lateral-direito.

Em construção, St. Juste é um pouco mais errático que Inácio. De recordar que, no Mainz, o neerlandês não era obrigado a participar tanto nessas tarefas como vai acontecer no Sporting, recebendo apenas cerca de 24 passes por jogo, algo que contrasta imensamente com os números de Inácio ou Neto, que variam entre 45 e 47 passes recebidos por jogo. St. Juste gosta de tentar verticalizar e procurar o passe em profundidade, mas tem maiores dificuldades no passe curto – com apenas 75% de eficácia, contra 90% de Inácio ou 93% de Luís Neto – algo que se notará sobretudo em contexto europeu, contra equipas mais pressionantes.

A nível defensivo, St. Juste é confiante e agressivo, com 3,2 tentativas de desarme por jogo – acima de Inácio (2,1), Coates (2,5) e Feddal (2,2) – e com uma eficácia nessas acções a rondar os 60%, registo do qual só Coates se aproxima. Será curioso ver como evoluirá o seu registo no jogo aéreo, talvez a maior pecha a nível defensivo. Nos últimos dois anos de Bundesliga a eficácia nos duelos aéreos defensivos cifrou-se em 51%, abaixo de todos os centrais do Sporting e bem abaixo da média de um central de Liga Bwin (63%). No entanto, será sempre mais difícil conseguir valores elevados na Bundesliga do que por cá.

[ Acções defensivas (esq.), recuperações de posse (ctr.) e duelos aéreos ganhos (dta.) por St. Juste na Bundesliga 20/21 ]

Em resumo, St. Juste tem praticamente tudo para se afirmar como titular do Sporting sem grandes problemas. Assim se adapte a um modelo de jogo em que vai ter muito mais bola (mas também mais espaço), o neerlandês encaixará perfeitamente no sistema de Amorim e até vai permitir potenciar ainda mais Gonçalo Inácio.


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Leonel Gomes
Leonel Gomes
Amante das letras, já escreveu nos jornais A Bola, Público e o O Jogo, dedicando-se também ao Social Media Management desde 2014. Tornou-se GoalPointer na "janela de mercado" do verão de 2019.