Reforços: Aposta arriscada de Jesus em Júlio César

Os campeões nacionais apostaram na experiência de um guarda-redes brasileiro que brilhou no passado mas que dá mostras de ter começado a perder qualidades.

Júlio César é uma aposta na experiência (foto: AGIF/Shutterstock)
Júlio César é uma aposta na experiência (foto: AGIF/Shutterstock)

O Benfica reforçou, finalmente, as suas opções para a baliza. Após a saída de Jan Oblak sobraram Paulo Lopes e o mal-amado Artur, e depois de vários nomes em cima da mesa, nomeadamente Sergio Romero, Loris Karius, Orestis Karnezis, o treinador Jorge Jesus teve um nome de peso como prenda. Mas terá sido verdadeiramente a melhor?

Júlio César é um nome sonante. Fez fama na Europa ao serviço do Inter de Milão, em especial nas épocas em que teve José Mourinho ao leme da formação transalpina. Entretanto parece ter caído no “purgatório” dos futebolistas. Entre o respeito que ainda incute e a desconfiança crescente, Júlio César, de 34 anos, como que caiu em desgraça ao trocar o Inter (onde esteve sete temporadas) pelos ingleses do Queens Park Rangers (QPR). Pelo emblema da Premier League fez apenas 24 jogos, tendo sido emprestado ao Toronto FC. A ida para a MLS (a Liga norte-americana) aconteceu quando o QPR já se encontrava na segunda divisão inglesa e o brasileiro se aprestava a perder o lugar na equipa. O Toronto surgiu como uma forma de se manter em competição e ser chamado por Luiz Felipe Scolari para o Mundial do Brasil.

Oportunidade perdida

E foi mesmo, assumindo a titularidade de forma indiscutível (pelo menos para Scolari). Será que Júlio César aproveitou bem a oportunidade para relançar a carreira? Os números mostram que não, mesmo levando em conta que um guardião está, por vezes, dependente do que toda a equipa consegue produzir. E não é preciso um grande exercício de memória para recordar a prestação que o Brasil teve no “seu” Mundial, em especial quando chegou às meias-finais.

A conclusão que tiramos prende-se com os números de Júlio César no Brasil. Convenientemente dá até para comparar com o que um dos alvos do Benfica, neste caso Romero, conseguiu fazer também no Campeonato do Mundo. A sua Argentina chegou à final e, apesar de ter sido suplente no Mónaco em 2012/13, Romero conseguiu ainda assim ser uma das figuras da equipa.

GP - info - JulioCesar23Ago2014

Se levarmos em conta os números, Jorge Jesus terá de recorrer a toda a sua “fé” em Júlio César para que a aposta seja ganha. No Mundial, o brasileiro fez os mesmos sete jogos que Romero (sete) apesar de menos tempo em campo, devido aos prolongamentos. O novo guardião “encarnado” encaixou, nos mesmos sete encontros, 14 golos, contra apenas quatro de Romero – e de Manuel Neuer, o melhor guarda-redes da competição. Romero e Neuer voltaram a igualar-se em número de partidas sem sofrer golos – quatro também -, enquanto Júlio César apenas não viu a sua rede violada numa ocasião, no 0-0 com o México. Pouco, muito pouco.

Sem brilho

O Brasil não foi propriamente uma equipa dominadora e arrasadora, daquelas em que o seu guarda-redes corre o risco de passar 90 minutos sem trabalho – antes pelo contrário. Mesmo assim, Júlio César efectuou somente nove defesas, contra 16 de Romero (… e de Neuer), duas delas a soco (Romero cinco e Neuer três). Muito longe das 21 paradas de Tim Howard, o recordista da prova. Destacou-se na eficácia na distribuição de bola, com 72% contra 62% de Romero, mas tal explica-se pela distância de distribuição mais conservadora (26 metros em média, contra um arrojado Romero, que atingiu os 48 metros). Valores que Júlio César alcançou sem que tenha efectuado uma só exibição de grande nível, com defesas que garantam pontos ou vitórias.

Por tudo isto, Jorge Jesus terá, certamente, uma confiança muito grande nas capacidades de Júlio César para o recrutar para a Luz. Talvez o brasileiro precise de num novo desafio e tranquilidade para regressar a um nível mais elevado. Só o tempo o dirá se o treinado do Benfica acertou ou não na aposta.