Reforços: Brahimi precisa de encontrar a saída

O FC Porto reforçou-se com um dos mais enérgicos extremos do futebol espanhol, mas o argelino Brahimi ainda tem de evoluir em vários aspectos do seu jogo.

Yacine (segundo a contar da direita) ao serviço da selecção argelina, com Ghilas e Halliche no enquadramento (foto: C. Lechat/WC)
Yacine (segundo a contar da direita) ao serviço da selecção argelina, com Ghilas e Halliche no enquadramento (foto: C. Lechat/WC)

Em 1993, em vésperas de um importante jogo de Portugal com a Suíça, de apuramento para o Campeonato do Mundo de 1994, o agora seleccionador de Inglaterra, Roy Hodgson, era o treinador da equipa nacional da Suíça. E na antevisão à partida comentou as qualidades daquele que era então o melhor jogador português em actividade: “Paulo Futre é capaz de fintar dois italianos dentro de uma cabina telefónica, mas depois não consegue encontrar a saída.” Lembrámo-nos de Hodgson ao analisar Yacine Brahimi.

O mais recente reforço o FC Porto chega oriundo da exigente Liga BBVA, do Granada, e é uma das apostas de Julen Lopetegui para a nova época. Mas quem é este argelino que esteve no último Campeonato do Mundo? É um extremo que pode jogar em ambas as alas (mas também pelo meio, como médio-ofensivo) e que se destaca, sobretudo, pela força física, finta fácil e mudanças de velocidade e direcção. São todas boas qualidades de um desequilibrador, mas terá tudo para ser decisivo na formação portista?

Equipas, contextos, Ligas diferentes podem ter um peso no desempenho global de um jogador, mas olhando para o plantel “azul-e-branco” – mesmo sabendo que por vezes a aposta de um treinador num jogador pode ser incondicional –, parece seguro que este jovem de 24 anos poderá sentir algumas dificuldades de afirmação, em especial devido aos seus pontos fracos: a finalização e incerteza no remate.

Clique na imagem para ler em detalhe (infografia: GoalPoint)
Clique na imagem para ler em detalhe (infografia: GoalPoint)

Difícil de travar

Mas vamos por partes e olhemos para o que o destaca dos demais. Trata-se de um jogador veloz e com grande capacidade de drible, a ver pelos números apresentados na última época. Em 35 jogos na Liga espanhola, driblou 164 vezes, 4,7 por jogo (nove fintas em três partidas do Mundial 2014), e efectuou 1,1 passe para ocasião de golo por partida pelo Granada na Liga (1,7 no Brasil). Apresentou uma média (nas duas competições) de cerca de 30 passes por jogo, com uma boa média de eficácia (entre 81,5% e 82,9%), perfazendo quatro assistências pelo clube e uma na selecção. Entre estes números destacam-se os passes longos, nos quais Brahimi é exímio, com 58 na La Liga (89,7% certos) e nove no Mundial (88,9% certos).

No capítulo do passe, peca nos cruzamentos, o que não é abonatório para um extremo. Em 35 jogos em Espanha efectuou apenas 53, só nove deles completos (17%), melhorando no Brasil (12, com 33,3% de eficácia). Por outro lado é alvo de vários desarmes, 2,3 por jogo em Espanha (1,7 no Mundial), e defensivamente os seus números são residuais.

“Calcanhar de Aquiles”

Mas voltando aos remates… na Liga espanhola marcou três golos em 35 jogos, um pecúlio modesto, resultado de 61 remates, 1,7 por jogo, 45% deles enquadrados (com um aproveitamento de 4,9%), e com uma melhoria substancial no Brasil. Este parece ser o “calcanhar de Aquiles” de Brahimi, a capacidade de remate e a competência na finalização. Um capítulo em que, por exemplo, Ricardo Quaresma, Tello ou mesmo Silvestre Varela – que jogam nas mesmas posições –não sentem tantas dificuldades, sendo habituais marcadores e golos.

Os seus 24 anos podem ser um factor a seu favor, por ter ainda margem para progredir e melhorar nos aspectos em que é menos produtivo. Mas se conseguir trabalhar bem estes detalhes no Dragão, aí sim poderá tornar-se um caso sério no futebol português.

Radiografia*

Brahimi é um extremo que se destaca sobretudo pela sua enorme capacidade física. Jogador que aguenta muito bem o choque com os adversários e que aposta na grande velocidade para quebrar as linhas defensivas.

Ao aliar a sua capacidade de drible às constantes mudanças de direcção durante a condução de bola, este argelino é sempre bastante vertical nos seus lances, tendo ainda uma técnica de passe longo bastante boa. Peca, porém, no posicionamento no momento defensivo e na reacção à perda de bola, e pode também ainda melhorar a sua eficácia na finalização.

A radiografia é uma rubrica da autoria de Miguel Pontes.