Reforços | Darwin Núñez, espécie em evolução

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E aí está o “novo Cavani”, como alguma imprensa apelidou Darwin Núñez, o novo avançado do Sport Lisboa e Benfica, cuja aquisição (26 milhões de Euros) entra ao mesmo tempo para o primeiro lugar do mercado em curso e para a liderança das maiores compras de sempre do Futebol português. Quem é Darwin, que “evolução” protagonizou e porque valerá tamanho investimento? Propomos descobrir as pistas para estas dúvidas nas próximas linhas.

O percurso

Darwin Gabriel Núñez Ribeiro nasceu em 1999 (21 anos) em Artigas, no Uruguai. Dado a conhecer ao mundo no Peñarol, clube no qual ingressou com apenas 14 anos, Darwin estreou-se pela equipa principal com apenas 18 anos (em 2017), integrando a primeira equipa em definitivo no ano seguinte, ou seja, apenas dois anos antes de aterrar na Luz como sensação do mercado. O que jogou Darwin nesses dois anos? Ao todo o avançado realizou 54 jogos nos dois clubes que representou, a maior parte já na Europa, ao serviço do Almería, clube no qual ingressou no verão passado, por €7M, um valor que já então “rebentou”, por larga margem, com o seu valor de mercado nesse momento: 750 mil Euros. Em Espanha somou 16 golos em 32 partidas, 15 deles no segundo escalão da La Liga, aos quais juntou ainda três assistências antes de despertar a cobiça que veio a materializar-se na chegada ao Benfica.

Darwin tem também currículo na “albiceleste”, sobretudo nos Sub-20 (14 jogos, 4 golos), embora já se tenha estreado (e marcado) pela Selecção principal uruguaia. No seu histórico pela equipa nacional contam-se ainda dois golos em quatro partidas no Mundial de Sub-20 de 2019, um “pormaior” que certamente contribuiu para o seu “piscar” nos radares do futebol europeu.

[ O desempenho de Darwin no último Mundial Sub-20, disputado em 2019 ]

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Enquanto profissional, Darwin esteve impedido de dar o seu contributo, por motivos físicos, apenas durante seis dias, já no Almería, mas isso não invalida que guarde ainda consigo a memória traumática de uma lesão grave nos ligamentos cruzados do joelho direito, ainda com 16 anos, que o fez equacionar pendurar logo aí as botas.

O desempenho

Os números de Darwin apresentam alguns pormenores interessantes, mesmo tendo em conta a diferença de contextos e idade face aos avançados do Benfica com os quais é comparado. Antes de mais, nem Seferovic nem Vinícius se aproximaram sequer dos minutos jogados pelo uruguaio nos 32 jogos disputados na La Liga 2 19/20, o que promete uma disponibilidade e saúde permanente, muito importante para um clube que visa chegar longe em todas as frentes que disputa.

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Deixando a análise mais pormenorizada para a apreciação GoalPointPro que se segue, chamamos a atenção para um número que destaca Darwin face aos comparados – a frequência e eficácia com que disputa duelos aéreos ofensivos – factor que sugere que o avançado faz uso eficaz da sua estatura, sempre que as ideias de jogo em confronto o chamam a reclamar a superioridade aérea no momento de atacar.

A apreciaçãoGoalPointPro-trim2

Quando pensamos nos mais recentes trabalhos de Jorge Jesus em Portugal, lembramo-nos de Cardozo, Slimani e Bas Dost. Em comum entre todos eles, para além dos muitos golos que marcaram, têm o facto de serem referências ofensivas fisicamente fortes, com qualidade no jogo aéreo e que não eram necessariamente primorosos a nível técnico. É este o modelo de “9” preferido do regressado técnico “encarnado”, e é esse “projecto” que JJ procura em Darwin Núñez.

Essa capacidade de jogar como referência ofensiva está bem espelhada nos mais de sete duelos aéreos ofensivos que o uruguaio disputava a cada jogo, um registo que – também em virtude dos diferentes modelos de jogo de cada equipa – é mais do dobro do de Seferovic ou Carlos Vinícius. A frequência com que vence esses duelos ronda os 40%, mas sobe para 50% se consideramos apenas os que são disputados dentro da grande área, um número positivo e que, aos 21 anos, terá tendência a melhorar assim que ganhe ainda mais robustez física e aprenda a melhorar o posicionamento do corpo nessas disputas.

Mas nem é essa a principal qualidade do Darwin actual, antes de ser moldado por JJ. Entre todos os seus registos, salta a vista o tipo de passes que recebe antes de finalizar. Dos 2,2 remates de bola corrida que regista a cada jogo, 53% surgem na sequência de passes verticais, um número bem diferente dos registos de Seferovic (31%) e Carlos Vinícius (23%), que ainda assim são relativamente fortes neste aspecto. Se as principais opções de Lage progrediam em média 2,4 metros com bola antes de cada remate, o registo de Darwin situa-se nos 5,8.

Enquanto jogador do Benfica, sobretudo na Liga NOS, Darwin irá encontrar menos espaço para fazer uso dessa capacidade, e acabará por ser mais solicitado contra defesas de bloco baixo, e em que será obrigado a tirar adversários da frente, antes do remate, mas também disso o uruguaio é capaz. Veja-se o excelente registo de dribles no último terço (2,5 / 90m com 47% de eficácia), que fica bem acima dos de Seferovic (0,6 | 43%) ou Vinícius (1,4 | 56%), e que combina com o facto de ter muito poucos remates bloqueados (0,2), fruto dessa capacidade para ganhar espaço antes de se enquadrar.

Capacidade razoável de finalização

Quando aparece em situações flagrantes de golo, a sua capacidade de finalização é razoável. Converte cerca de 40% das suas ocasiões flagrantes (número dentro da média) e enquadra quase 80% das mesmas, aí sim, bem acima da média (cerca de 65%). Os seus remate são tendencialmente mais em força do que em jeito, e esse é um aspectos que pode melhorar com a frieza que virá com a idade.

Onde Darwin tem muito a melhorar é na capacidade de ligação com o meio-campo e com os outros avançados. Apesar de ser um ponta-de-lança que tenta participar na construção (17 passes por jogo), a eficácia nesse tipo de acções é muito baixa. Dentro do último terço, 50% dos passes são falhados, e até mesmo os passes laterais e atrasados têm eficácias abaixo da média (62% e 78%, respectivamente). Juntando isso a um primeiro toque ainda pouco trabalhado (11% de posses perdidas na recepção), Darwin acaba por ter uma percentagem de posses perdidas (42%) relativamente alta, até em relação a Seferovic e Vinícius (38%).

Sem bola, o uruguaio vai agradar aos adeptos “encarnados”. Para além da ajuda nas bolas paradas defensivas, onde é um grande “upgrade” em relação às actuais opções, Darwin é extremamente dinâmico nas acções de pressão alta e vence uma elevada percentagem de duelos, ajudando bastante a dificultar a construção dos adversários.

Em resumo, o uruguaio ainda tem margem de evolução, sobretudo em alguns aspectos técnicos e de tomada de decisão, mas é um projecto de “9” interessantíssimo a desenvolver, e bem ao estilo do que gosta Jorge Jesus.

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