Reforços | Everton & Pedrinho, as asas de Jesus

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N ova época, novo Benfica. O regresso de Jorge Jesus trouxe com ele mais um Verão de forte investimento na Luz. Ao todo os “encarnados” já gastaram cerca de 53 milhões de euros, estando a apenas dez dos 63,5 aplicados na época passada, o recorde do clube. Entre as chegadas já confirmadas destacam-se dois nomes, Éverton “Cebolinha” Soares e Pedro “Pedrinho” Silva. Quem são, como jogam e que notas sobressaem do desempenho dos dois brasileiros que, juntos, representam um investimento de 38 milhões? É isso que nos propomos “despachar” nas próximas linhas.

O percurso

Pedrinho chega ao Benfica com 22 anos (custo 18M€, valor de mercado 17M€), após uma primeira fase de carreira onde não conheceu outro emblema que não o do Corinthians, pelo qual se estreou como profissional em 2017. Desde então, e embora seja claramente o mais “inexperiente” dos dois reforços em análise, o jovem somou 93 jogos oficiais pelo “Timão” em três anos (um título de campeão do Brasil), 17 deles em provas continentais (Libertadores e Sudamericana). Contando já com 10 internacionalizações pelos sub-23 da “canarinha”, falta-lhe ainda dar o “salto” para o último patamar, algo que o diferencia de Everton, como iremos referir mais adiante.

[ Os números de Éverton na Copa América 2019, prova que não só venceu como terminou como melhor marcador ]

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Já Everton aterra em Lisboa com mais dois anos do que o novo colega (24) e outros tantos degraus percorridos, no que toca a currículo e relevância, no contexto do futebol sul-americano (custo 20M€, valor de mercado 28M€). “Cebolinha” passou primeiro pela formação do Fortaleza, antes de chegar aos sub-19 do Grêmio, clube que representou até se transferir para o Benfica e onde somou títulos (Taça do Brasil, Libertadores e Recopa Sudamericana) que o foram confirmando como um valor seguro do futebol brasileiro.

No entanto, a grande prova de afirmação do desequilibrador surgiria na Copa America 2019, torneio que venceu e no qual convenceu (melhor marcador), aproveitando da melhor maneira a ausência de Neymar por lesão para brilhar, nos mesmos terrenos. O “bilhete europeu” de “Cebolinha” está comprado desde então, surpreendendo apenas a demora no embarque e, para alguns, o “valor da passagem”, surpreendentemente baixo.

O desempenho

Everton e Cebolinha são ambos extremos, ambos capazes de jogar pelo meio e jogam preferencialmente pelo corredor oposto ao seu pé dominante (especialmente o segundo, que o retoma para rematar, após incursões interiores que são a sua imagem de marca). A partir daqui surgem as diferenças, como tantas vezes sucede quando comparamos jogadores especializados em desmontar adversários pelas alas. Antes da análise aqui ficam os dados de desempenho de Pedrinho e Everton no Brasileirão 2019, comparados com outras duas “águias”, para depois destacarmos o que realmente importa saber.

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Everton é um extremo de desequilíbrios, mudança de velocidade e “baliza”. Pedrinho, sendo também um desequilibrador, é um ala de “último passe”, com mais cruzamento e também mais serviço para o último remate dos colegas. Esta é a forma mais sucinta de caracterizar as especializações dos dois “canarinhos”, visíveis nos dados apresentados, e ambas premiadas com ratings muito positivos no último campeonato brasileiro.

Não deixa de ser curioso ver Pedrinho fechar o torneio com um rating um pouco acima do colega ex-Grêmio, ainda que com uma vantagem sem significado que mereça atenção. Entre outros factores, o ex-corinthians destacou-se não só por ter mais bola (acções de jogo) como também por preservá-la com maior eficácia (% de posses perdidas), o que acaba por ser um indicador promissor, face à teórica menor experiência. Ainda assim Everton poderá ajudar Pedrinho a descobrir como replicar a sua maior acutilância na hora de alvejar a baliza, sem com isso prejudicar outro factor em que o ex-Grêmio se destaca: a frequência de duelos individuais ganhos através do drible, em especial onde “mais dói” ao adversário: o último terço.

A comparação do desempenho dos reforços com a bitola de Rafa e Cervi permite sublinhar uma realidade que ambos terão de enfrentar, nesta transição continental: para jogarem na Europa, e em especial no Benfica de Jesus, terão de aumentar o registo face ao que lhes era exigido do lado de lá do Atlântico, na hora de somar acções defensivas no apoio à equipa.

A apreciaçãoGoalPointPro-trim2

Apesar de, em teoria, Everton e Pedrinho chegarem ao Benfica com o objectivo se serem utilizados nos flancos, pode-se dizer que nenhum deles é exactamente um extremo.

Pedrinho é um jovem que pensa como médio-ofensivo. Com cerca de 42 passes por jogo, é um jogador que, à semelhança de Pizzi, gosta de se envolver na construção, sempre de olho na baliza. Na verdade, 52% desses passes têm como destino o último terço, e a eficácia nessa zona (75%) é elevada, tendo em conta a verticalidade que imprime. O resultado prático é um alto volume de passes para finalização, que terá tendência a resultar num elevado número de assistências. Os seus movimentos da direita para o meio têm também o condão de explorar o seu bom pé esquerdo. Os 1,9 remates de fora da área (excluindo livres directos) que regista a cada jogo são um número praticamente sem paralelo no Brasileirão, com uma distância média para a baliza de cerca de 23 metros. Um número muito acima da média de um extremo (cerca 18 metros) e que mostra algo em que Pedrinho pode melhorar, escolhendo melhor os momentos para atacar a baliza através do remate.

Estas duas características moldam um jogador que (como se vê no “heatmap”) tem pouca tendência a invadir a área adversária (1,9 acções por jogo dentro da área), e essa é uma das grandes diferenças para Everton (5,9).

Se Pedrinho “pensa” como médio-ofensivo, Everton é quase um ponta-de-lança na forma como é atraído pela baliza. Nos últimos anos, cerca de 25% dos golos do Grêmio eram de sua autoria, o que não espanta num “extremo” que consegue uma média de dois remates dentro da área a cada jogo. Apesar de também gostar de disparar de fora da área e de o fazer com qualidade e potência, “Cebolinha” é muito forte em algo que Pedrinho não possui: a capacidade de atacar a profundidade. Dos muitos remates que o internacional brasileiro faz a cada jogo, vários deles surgem na sequência de passes verticais seguidos de progressão com bola, e para isso também contribui a sua enorme capacidade de aceleração e velocidade. No Brasil, Cebolinha tentava uma média de 8,5 dribles a cada 90 minutos, número sem paralelo, tanto por lá como por cá, sendo que mais de metade ocorriam no corredor central.

Algo que ambos têm em comum e que terão de melhorar é a disponibilidade para o trabalho sem bola. Pedrinho (3,0) e Everton (2,4) intervêm pouco quando o adversário tem a posse, mas é sobretudo Cebolinha que perde na comparação com Cervi (7,2) e até Rafa (4,5). Em 2019, nenhum extremo no Brasil registou tão poucas acções defensivas no último terço ofensivo como Everton (0,2). De Arrascaeta, por exemplo, fazia cinco vezes mais.

Em resumo, Pedrinho e Everton são dois jogadores que vêm claramente acrescentar valor ao plantel “encarnado”, mas Pedrinho é aquele que tem mais arestas a limar e que terá mais dificuldade em encaixar no sistema de JJ. Enquanto Everton só tem que melhorar sem bola, Pedrinho terá que se tornar mais incisivo e definir melhor os “timings” de remate/último passe. Algo normal, tendo em conta os seus 22 anos, mas resta saber se haverá paciência para esperar e capacidade do brasileiro para se ajustar às ideias do novo técnico benfiquista. Seja como for, o potencial é enorme, e ambos estão destinados a um grande futuro, ainda que, no caso de Pedrinho, posso não ser imediato.

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