Reforços: Ryan Gauld, talento e dois fardos às costas

Uma das contratações mais sonantes do Sporting para esta temporada tem alguns obstáculos para ultrapassar antes da sua afirmação. Confira-os.

À primeira vista, sem analisar uma única imagem de Ryan Gauld, percebe-se que o jovem escocês precisa de ter estofo psicológico e maturidade precoce para a idade. Aos 18 anos deixa a sua zona de conforto, a rudimentar Liga escocesa, e tenta uma carreira semelhante à de Ronaldo ou Figo – Sporting surge associado ao nome dos dois atletas nas notícias ventiladas em Inglaterra. Mas tem dois fardos às costas; o facto de ser conhecido como “mini-Messi” e de ser a aquisição mais dispendiosa na era Bruno de Carvalho, qualquer coisa como 2,5 milhões de euros.

Os escoceses salientam a ausência de tiques de vedetismo de Gauld, talvez o primeiro escocês cujo nome foi associado, em simultâneo, a Arsenal, Liverpool, Chelsea, Manchester United, Real Madrid e Borussia Dortmund.

Clique na imagem para ler em detalhe (foto: Scotish FA Infografia: GoalPoint)

Quem olha para Gauld percebe que está ali um jogador de equipa, habilidoso, mas essa magia na ponta das botas esconde a sua principal característica; a simplicidade com que executa. Nos 43 encontros disputados para a Liga escocesa, Gauld faz em média 2,8 passes para ocasião de golo por jogo. O que significa que estamos na presença de um futebolista que não hipoteca as possibilidades de êxito de um lance por mais um adorno que satisfaça o seu ego e que sabe definir – tende a ficar o tempo certo com a bola em seu poder.

Apesar de ser frágil fisicamente, Gauld não vira a cara à luta. Faz, inclusivamente, tantos desarmes como dribles por jogo (três). E no contacto corpo-a-corpo tem argumentos para ficar com a bola, o que se considera pouco provável quando olhamos para a fisionomia do escocês. Ganhou 44% desses combates…

O que oferece Gauld? Uma forma diferente de o Sporting abordar o jogo. Se se posicionar à direita, o seu jogo interior com as diagonais para o meio serão preciosas, de modo a utilizar o pé esquerdo. E será sempre Montero o avançado beneficiado, pois o estilo de jogo de Gauld favorece as combinações com que o colombiano gosta de progredir para a baliza.

No entanto, Gauld é visto, preferencialmente, como o número 10, o que obrigaria o Sporting a jogar com dois médios de cobertura (William e Adrien por exemplo). Na Escócia, ao serviço do Dundee United, foi utilizado entre a ala direita e a posição 10. De quando em vez surgiu no lado esquerdo, mas sem continuidade.

Ainda assim, estas nuances só terão razão de ser se os fardos perderem peso.

Eis uma compilação de alguns momentos de Ryan Gauld no futebol escocês:

Radiografia*

Sendo um jogador de baixa estatura, Ryan Gauld tem um centro de gravidade inferior ao dos adversários e, por conseguinte, tem um excelente equilíbrio. Devido a isso, apesar de ser muito franzino, consegue aguentar razoavelmente bem o choque físico.

Dotado de um pé esquerdo que a nível técnico é muito forte na condução de bola e drible, este pequeno escocês destaca-se sobretudo pela sua fantástica tomada de decisão e por um aspecto fundamental nos dias de hoje, jogar com a cabeça sempre levantada mesmo a conduzir ou a receber a bola.

Podendo jogar nas três posições que um médio-ofensivo ocupa (esquerda, direita ou centro), é no centro do terreno que sobressai, sobretudo devido à excelente qualidade de passe curto, mas também passe a desmarcar colegas. Ao jogar nas alas a sua velocidade resistente revela-se insuficiente para ultrapassar os adversários, sobretudo quando tenta ganhar a linha de fundo.

* A radiografia é da autoria de Miguel Pontes

 

Confira a análise GoalPoint de outros reforços do futebol nacional para a época 2014/2015:

Oriol Rosell (Sporting CP)
Luís Felipe (SL Benfica)
Óliver Torres (FC Porto)