Parece mentira, mas já passaram quatro anos desde a promissora primeira época de Renato Sanches. À rápida afirmação, como titular de um Benfica em processo de recuperação que culminou em título, seguiu-se a chamada à Selecção no EURO 2016, numa campanha que terminou no momento maior do futebol luso e no qual “Bulo” participou activamente.

Seguiu-se a transferência milionária para o Bayern e… o início de um calvário que alimentou dúvidas sobre a real valia do jovem jogador. Os fãs do seu futebol temeram pelo seu destino. Os “haters”, invariavelmente mais motivados pela tradicional doença nacional da clubite do que por uma real antipatia para com o jogador, foram rejubilando com a aparente curva descendente do médio-centro.

Melhor do que nos tempos de “águia” ao peito…

O director desportivo do Lille, o português Luís Campos, não se terá deixado influenciar pela tal curva. No verão de 2019 os responsáveis do clube francês desembolsaram 20 milhões de euros por Renato, num contrato que vai até 2023, certamente convictos da capacidade do português em inverter a tendência. O tempo e os números vêm-lhes dando razão, com mais uma prova a chegar no último jogo a contar para a Ligue 1.

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Em boa verdade os sinais de “renascimento” do jogador não se limitam a este último jogo. Optámos, aliás, pela forma mais simples de o demonstrar, comparando os seus números na época em curso com aqueles que, ao serviço do Benfica, motivaram o interesse de meia Europa e uma afirmação de mercado quiçá precipitada face ao que seria o trajecto mais adequado ao seu crescimento como jogador.

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Conforme demonstram os números, Renato Sanches está a fazer muito do que é essencial na sua posição, ao mesmo nível do que o fez na sua época de afirmação. E o que não está a fazer ao mesmo nível… está a fazer melhor, ou seja com maior produtividade e eficácia. Se a isso somarmos o facto de disputar neste momento uma Liga mais cotada do que a portuguesa, e inscrito numa equipa proporcionalmente menos dominante nesse contexto do que o Benfica o é na Liga NOS, é caso para dizer que o “Bulo” reapareceu e em força.

…e com mais baliza, mesmo sem rematar mais

A Renato falta-lhe apenas uma assistência na Ligue 1 para igualar as acções para golo com que se afirmou na Liga NOS em 15/16 e isto com quase menos 800 minutos jogados na época em curso. Mas os sinais de melhoria e amadurecimento do seu futebol não se ficam por aqui.

Os números do “Renato 19/20” mostram-no mais rico do que a “edição 15/16”, com destaque para as acções de apoio ao processo ofensivo da equipa, tanto na procura de desequilíbrios individuais (ex.: média de dribles eficazes) como na criação de ocasiões de remate para os colegas (média de passes para finalização). O único registo fundamental que não melhorou substancialmente é a frequência de remate, embora também este esteja ligeiramente acima da sua média no Benfica.

Ao compararmos os heatmaps de acções com bola das épocas transactas, confirmamos o aparecimento de uma versão mais ofensiva de “Bulo”, e um que até se aventura pelos flancos (em particular o direito). Este último pormenor encontra correspondência noutra “novidade” que partilharemos nas próximas notas.

Apesar da diferença de minutos jogar ainda a favor do “Renato 15/16” , a verdade é que a edição “Sanches 19/20” já soma, no que toca a números totais:

  • mais passes para finalização (21 no Lille contra 16 no Benfica)
  • mais cruzamentos de bola corrida (29 contra 18) e com maior eficácia (21% contra 17%)
  • mais dribles eficazes no último terço (19 contra 18) em muito menos tentativas, o que resulta num notório “boost” de eficácia de execução (58% contra 33%)
  • Outra diferença? Renato não só passou a marcar cantos (no Benfica cobrou apenas um para a área) como os executa com razoável acerto: leva 19 pontapés dirigidos à área adversária, sendo que 21% deles foram recebidos com sucesso por colegas.

Mas será o novo desempenho de Renato apenas “rosas”? Não, o médio tem naturalmente aspectos a melhorar, como por exemplo o facto de, tendo praticamente a mesma intervenção no jogo em França que tinha na Luz (uma média próxima das 80 acções com bola por jogo), ter aumentado um pouco a percentagem de posses perdidas (de cerca de 20% para 24%). No entanto, até este dado deve ser encarado com o devido olhar analítico: um jogador que arrisca mais (no drible, no passe para finalização) perde naturalmente mais posses do que aquele que adopta um jogo mais conservador no plano ofensivo.

Se a isto somarmos o facto de “Bulo” manter a média de acções defensivas completas com que se lançou (aquelas que garantem a recuperação de posse para sua equipa), é caso para concluir que a versão “francesa” de Renato prometer ser um claro “upgrade” face ao melhor Sanches que a Liga NOS viu.

Renato Sanches “escolheu” a época ideal para regressar em força, o ano em que Portugal se apresentará à defesa do seu título europeu.

O regresso às opções de Fernando Santos será certamente difícil, mas ao manter (ou até melhorar) estes e outros índices, “Bulo” estará certamente mais próximo de o conseguir.

E quem não gostaria de, por exemplo, o ver assinar uma qualquer acção decisiva, frente à Selecção representante do país onde falhou o seu segundo degrau de afirmação (Alemanha)? Esta é uma questão que apenas um “hater” responderá “eu”, mesmo que não saiba sequer explicar porque não gosta de Renato Sanches.