Ronaldo, o anti-português

Cristiano Ronaldo (foto: J. Trindade)
Cristiano Ronaldo (foto: J. Trindade)

Cristiano não é o primeiro nem será o último português que, fora das suas fronteiras, não só demonstra a capacidade como a qualidade do trabalho que o “luso” é capaz de apresentar, longe do conforto (e dos vícios) do seu país. Não é a apetência de Ronaldo para o trabalho árduo que surpreende na sua última (e melhor) entrevista dada a Marcelo Rebelo de Sousa, até porque existe há muito uma consciência generalizada que o melhor do mundo apenas o é porque para isso trabalhou, em cima do talento que descobriu. O que mais surpreende na entrevista de “CR7”, para lá da qualidade e utilidade com que partilha hoje a forma como interpreta o seu sucesso, é a negação que faz de todas as tradicionais “muletas” às quais nós, seus conterrâneos, recorremos no nosso eterno processo de justificação e comiseração. Mas já lá vamos.

Ronaldo não beneficiou de muitos dos apoios que poderiam ter ajudado, aqui e ali, a sua carreira. Para começar não nasceu numa família de futebolistas e não começou numa grande metrópole, perto de um grande clube. Teve a sorte, é certo, de ser descoberto por um clube (Sporting) que, no panorama nacional, lhe podia oferecer o maior apoio ao seu desenvolvimento mas nem nesse trajecto encontrou facilidades. Justa ou injustamente Cristiano foi relativamente ignorado pelas selecções nacionais, amealhando apenas 20 internacionalizações nas camadas jovens, limitadas aos escalões Sub-17, 20 e 21. Nesses tempos as “next big things” eram Ricardo Quaresma e o exemplar (no mau sentido) Fábio Paím. O “padrinho” de Cristiano no mundo do futebol foi a sua própria vontade de vencer.

Vontade todos temos ou dizemos ter, mas rapidamente nos deixamos cair nas “muletas” que Cristiano renega. Temos vontade mas não temos apoios. Queremos fazer mas andamos cansados. Gostaríamos de alcançar mas não sabemos como ou procuramos descobrir de que maneira. Temos o azar de viver em Portugal, dizemos por vezes, ignorando o facto de que Portugal é o que nós fizemos dele desde que nos deram, pela democracia, a opção de escolher o que queremos para nós. Vontade não nos falta mas faltam-nos, de forma genérica, três atitudes em que claramente Cristiano Ronaldo se demarca do ser português: capacidade de trabalho, determinação  e optimismo.

Na entrevista que deu Ronaldo demarcou-se claramente das “muletas” nas quais encontramos conforto, por cá. E com isso assume-se, na minha opinião, como talvez o melhor exemplo que Portugal teve para as gerações actuais e vindouras, na era moderna. Numa era em que percebemos que os gestores de topo não eram assim tão bons e que os políticos, alguns deles heróis da democracia, não foram afinal tão competentes, a nossa sorte e exemplo chama-se Cristiano Ronaldo. Ronaldo representa o sucesso e benefício escondido no renegar da nossa mentalidade pessimista, comodista e auto-justificativa. E com isso apresenta-se como o melhor exemplo, talvez único, para as gerações que, aplicando eu já o exemplar optimismo, irão recuperar Portugal, com mais trabalho e menos lágrimas.

A entrevista de Ronaldo devia, por tudo isto, ser conteúdo lectivo obrigatório. Talvez assim um dia tenhamos, cá dentro, a mesma Portugalidade que hoje em dia parece florescer lá fora.