O Benfica é, tal como os restantes “três grandes” do futebol português, um clube vendedor. No Verão passado, o emblema da Luz viu sair quatro peças importantes do seu “onze”, algo que, para muitos, será a principal razão para uma primeira metade de época periclitante da parte dos comandados de Rui Vitória.

Muito se tem falado do facto de o Benfica não ter encontrado um substituto à altura para Ederson, com Bruno Varela a mostrar fragilidades regularmente; ou da ausência de alguém que faça esquecer Nélson Semedo, embora André Almeida esteja em bom plano até ao momento; ou da falta de presença eficaz na área com a saída de Kostas Mitroglou, que não teve correspondência à altura com Seferovic – se não quisermos colocar Jonas na equação, claro está.

Mas há um caso que não tem merecido tanta atenção por parte da crítica, ou até dos adeptos: a saída de Victor Lindelöf. O sueco foi sempre titular nas duas primeiras temporadas de Rui Vitória ao comando do Benfica e a transferência para o Manchester United por €35M foi, não só acolhida com naturalidade, como considerada um bom negócio para os “encarnados”. Em termos financeiros terá sido, mas será que o mesmo se poderá dizer a nível desportivo? O seu substituto imediato foi um jovem jogador que poucos teriam apostado para a titularidade no arranque da época. Falamos de Rúben Dias.

Para além das semelhanças físicas entre os dois jogadores – não falamos apenas no penteado e na cor do cabelo (quando não está ausente), mas também de ambos terem 1,87m de altura -, será que Rúben Dias foi aposta ganha para Rui Vitória em comparação com Lindelöf? Acrescentou algo? Que valências a equipa perdeu?

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Dois homens, duas vocações

À primeira vista a diferença não é acentuada. Colectivamente o Benfica sofreu mais três golos (15) à 22ª jornada de 2017/18 do que pela mesma altura de 2016/17 (12), o que indica maior fragilidade defensiva. Porém, essa degradação do sector não terá passado por Rúben Dias, que até melhora a estatística defensiva da “águia” em alguns detalhes. O português faz mais do dobro dos desarmes do sueco a cada 90 minutos, equipara-se nas intercepções e perde apenas ligeiramente nos alívios e nos duelos aéreos. Então, em que divergem?

A grande diferença parece estar sim no estilo, ao observarmos mais atentamente outras variáveis dos dois jogadores.

DesempenhoV. Lindelöf (16/17)Rúben D. (17/18*)
Acções c/ bola p/90m70,762,8
% eficácia de passe90%84%
% efic. passe M/C contrário84%69%
% efic. passe último terço72%57%
Passes longos p/90m4,99,4
Passes aéreos p/902,24,5
Perdas de posse p/90m6,99,3
Desarmes p/90m0,61,3
% desarmes falhados28%0%
Bloqueios remate p/90m0,20,6
Bloqueios passe p/90m0,10,4
Recuperações p/90m5,03,5
Faltas cometidas p/90m1,01,3

Fonte: GoalPoint / Opta
* dados acumulados à 22ª jornada da Liga NOS 17/18

Os dados são claros. Lindelöf e Rúben Dias, apesar das semelhanças físicas, são jogadores bem diferentes. Pelo percurso que realizou na formação do Benfica, onde chegou a ser amplamente utilizado a defesa-direito e a médio-defensivo, Victor tem uma predilecção natural pelo transporte de bola e pelo passe, algo que faz bem melhor que Rúben. Aqui o Benfica perdeu qualidade, como se nota pelo número de acções com bola, eficácia de passe e certeza nas entregas no meio-campo contrário e último terço por parte do nórdico. O sueco dava um extra ao conjunto benfiquista nestes aspectos, que se reflecte, igualmente, numa quantidade bem menor de perdas de bola em relação ao jovem português – e até nas recuperações de posse, variável que se destaca também em médios e até alas.

Mas nestes 12 jogos na Liga NOS, Rúben tem mostrado ser melhor que Lindelöf em diversas acções defensivas puras. Como se pode constatar pela tabela acima, o português não se sente confortável no transporte de bola, preferindo o passe longo e pelo ar, não contribuindo sobremaneira para a construção controlada de jogo. Mas nas tarefas de destruir mostra números relevantes, à cabeça o facto de nunca ter sido driblado nestas 12 partidas, contra os 28% de desarmes falhados por parte do sueco na época passada. E Rúben ganha ao agora jogador do United também nos bloqueios de remate e de passe, não lhe ficando atrás nos duelos aéreos defensivos, como pode constatar na infografia.

O futebol tem diversas dimensões, sendo as mais imediatas – quando se fala de vantagens e desvantagens na troca de jogadores – as questões desportivas e financeiras. Os adeptos querem saber o que cada jogador faz em campo, pois são os resultados que os guiam, e, neste caso, ressalvando sempre o facto de Rúben Dias somar apenas 12 jogos na Liga NOS, o Benfica parece ter ficado a ganhar, para já, nos aspectos defensivos, mais relevantes para um defesa-central do que a sua capacidade de subir com a bola controlada. Se juntarmos à equação o facto de o emblema da “águia” ter encaixado €35M, sem necessidade de gastar dinheiro numa contratação para o lugar, não será descabido afirmar que o negócio de Lindelöf foi melhor do que salta à primeira vista. Bem melhor.