Rúben Dias já é o “novo” Van Dijk? 🔬

-

Este sábado, o Manchester City disputa a sua primeira final da Liga dos Campeões, no Estádio do Dragão, frente aos também ingleses do Chelsea. Na equipa de Pep Guardiola figuram três portugueses, Bernardo Silva, João Cancelo e Rúben Dias, e é impossível não olhar para a época do central e para o impacto que teve nos “citizens”, independentemente do desfecho do grande jogo que aí vem.

[ O desempenho recente na UCL de “citizens” e “blues” ]

Clique para ampliar

O “hype” já tem alguns meses, mas ganhou outra amplitude após as meias-finais da Liga dos Campeões, na qual o City afastou de forma categórica o Paris Saint-Germain, sem que, na segunda mão, em Inglaterra, Neymar, Kylian Mbappé, Mauro Icardi ou Ángel Di María tenham conseguido enquadrar um só remate. O “culpado”, segundo a apreciação geral, foi o central português, que já havia sido apontado como a principal razão para a recuperação do City, após um arranque de época tímido. Ao ponto de ter sido eleito Jogador do Ano da Premier League pela Football Writers’ Association (associação de jornalistas desportivos), pelos adeptos do City, mas também por vários comentadores, como Gary Neville ou Jamie Carragher, que comparam o português a Virgil van Dijk, do Liverpool. Será essa comparação justa?

“Adoro-o. Penso que tem sido o melhor jogador da Premier League esta época. Teve um enorme efeito no Manchester City. não dá para acreditar que tem 23 anos. Van Dijk foi abençoado com atributos físicos que [Rúben] Dias não tem, pelo que de alguma forma estou mais impressionado com o Dias” (Jamie Carragher)

Ainda há quem vá ao ponto de afirmar que o ex-Benfica é o “novo Van Dijk” ou mesmo melhor. Será mesmo assim? Bom, se for apenas com base nos analytics não o poderemos afirmar mas este é um dos casos em que a estatística não conta a história toda. Por esse motivo temos sido questionados diversas vezes quanto ao GoalPoint Rating do português, em especial na Premier League, muito abaixo do que o central do Liverpool conseguiu na época passada, na qual os “reds” se sagraram campeões.

Dois “muros”, cada um à sua maneira

[ Os desempenhos de Rúben Dias e Van Dijk: Premier League 20/21 vs 19/20 e UCL 20/21 vs 18/19 ]

Já poucos se lembram, mas o Manchester City começou mal a época. À oitava jornada da Premier League os “citizens” estava a meio da tabela, com apenas três vitórias e duas derrotas. A chegada de Rúben não teve impacto imediato, o que é normal. O português teria de se adaptar ao clube, colegas e, sobretudo, ao treinador. A esperada adaptação chegou e coincidiu com uma fase de grande sucesso, com 15 vitórias consecutivas, e os problemas defensivos, vividos desde a saída de Vincent Kompany, desvaneceram-se.

Dias e Van Dijk são jogadores incontornavelmente diferentes. Como afirmou Carragher, o holandês é um jogador fisicamente imponente, fortíssimo nas marcações, pelo ar, e não se deixa driblar com facilidade – aliás tem épocas inteiras em que simplesmente não se deixa driblar sequer. Já o Rúben “inglês” parece destacar-se sobretudo pela liderança e comunicação, conjugadas com um posicionamento, velocidade de reacção, antecipação e entrega notáveis e, até ver, sem qualquer “medo cénico”, tudo características tão fundamentais quão dificilmente mensuráveis, de forma directa, pelos analytics.

Mas como analyítics é a nossa especialidade aqui ficam alguns indicadores sobre o comparativo Rúben e e Virgil.

  • Ambos são muito fortes no passe, com valores de eficácia muito semelhantes, em especial para o terço defensivo e intermédio, mas nos passes progressivos eficazes, o português esteve melhor que o melhor Van Dijk na Premier League e na Champions.
  • Van Dijk tem melhores números na percentagem de sucesso dos desarmes tentados (49%-62% na EPL; 65%-75% na UCL), embora o português estivesse muito bem na Liga dos Campeões, com 65%. Dias conseguiu 0,8 desarmes por 90 minutos, Van Dijk 0,6 na época passada, com o português a tentar esta acção com maior frequência do que o holandês (1,6 contra 1,0).
  • O “citizen” terminou esta Premier League com uma média de intercepções semelhante à do central “red” (1,1), perdendo claramente nos alívios (2,9 para 4,3) e nos duelos aéreos defensivos. As características físicas de Van Dijk permitiram-lhe um registo de 83% de duelos aéreos defensivos ganhos, contra “apenas” 65% do português, mas na Champions as coisas equilibram-se, até com ligeira superioridade de Rúben.

[ À esquerda as 35 intercepções de Rúben Dias em 32 jogos, à direita os 40 de Van Dijk em 38 – Premier League ]

  • Em 2019/20, Van Dijk ficou famoso por não consentir um único drible durante grande parte da temporada da Premier League, tendo mesmo terminado a Champions 2018/19 “imaculado” neste detalhe. Pois bem, é aqui que o holandês ganha uma vantagem quase inatingível, pois Rúben terminou ambas as competições esta época com números baixos, mas semelhantes em dribles consentidos (0,4 na EPL, 0,3 na UCL).

[ À esquerda os 12 dribles consentidos por Rúben Dias (EPOL 20/21), à direita os sete permitidos por Van Dijk (EPL 19/20) ]

  • A vantagem de Rúben Dias está claramente nos bloqueios de remate, e este foi um dos detalhes que provocou todo o “hype” à sua volta na recepção ao PSG, durante a qual somou três bloqueios – o que ajuda no argumento do posicionamento impecável do internacional luso. Em qualquer um dos comparativos, Rúben ganha nos bloqueios de remate (0,7-0,4 na Premier League; 0,8-0,6 na Champions) e nos bloqueios de passe (0,3-0,1 EPL – 0,3-0,2 UCL).

[ À esquerda os 23 bloqueios de remate de Rúben Dias em 32 jogos (EPL 20/21), à direita os 15 de Van Dijk em 38 (EPL 19/20) ]

Uma “vitamina” para o City

Em comparação com a época passada, o City melhorou colectivamente em alguns dados defensivos, ainda que não de uma forma avassaladora. Em 19/20, os comandados de Pep Guardiola consentiram 35 golos, esta temporada 32. A grande diferença surge no número de remates permitidos na grande área. Se no total os “citizens” até encaixaram mais (de 277 passou para 285), na área o cenário é bem mais animador, com os números a passarem de 198 na época transacta para 173 na que agora terminou – falamos da Premier League.

Reunidos e analisados os dados, está bom de ver que, pese a incrível época que protagonizou, Rúben Dias ainda não atingiu o nível de Van Dijk mas será esta conclusão um sinal de fraqueza de Rúben Dias ou indicador de uma comparação exagerada e quiçá uma “premiação” individual que lhe coloca demasiado peso às costas e cedo demais?

Esteja ou não já ao nível de Van Dijk, a sua evolução foi tremenda e inegável, e o ideal mesmo para Rúben Dias é reforçar ainda mais as qualidades que tem evidenciado, nem todas quantificáveis pelos nossos métodos (e como se diz em inglês, “that’s just fine”) e melhorar os detalhes em que perde para essa “personagem da Marvel” que é Van Dijk. Se assim for teremos “bicho”. Até lá é manter a voz de comando, liderança, posicionamento, velocidade, a entrega a cada lance como se a vida de todos dependesse disso, já na final do próximo sábado e, já agora, no próximo EURO.

Pedro Tudela
Pedro Tudela
Profissional freelancer com 19 anos de carreira no jornalismo desportivo, colaborou, entre outros media nacionais, com A Bola e o UEFA.com.