É muito interessante a forma como tem sido posta a questão da continuidade de Rui Vitória no Benfica. Há um mês, mais coisa menos coisa, as notícias garantiam que Rui Vitória estava seguro, era uma aposta forte de Luís Filipe Vieira e não havia qualquer resultado que o pudesse enfraquecer. Ou seja, acontecesse o que acontecesse, a relação de Rui Vitória com o Benfica era forte, sólida, quase inabalável.

Agora, consumada que foi a terceira derrota da época do Benfica com o Sporting em três jogos e a consequente eliminação da Taça, a que se junta a derrota na Supertaça e um cenário complexo no campeonato, as coisas parecem ter mudado pouco… mas o pouco que mudou tem potencial para ser decisivo.

Se há um mês Rui Vitória estava firme no comando da equipa técnica de futebol profissional do bicampeão (convém lembrar de vez em quando), agora a ideia que passa – porque é passada por alguém – é que Rui Vitória só sai se quiser. Ninguém lhe toca, como diz Rui Costa, mas…

A porta deixou de ter trancas blindadas. Agora está no trinco e se o técnico o quiser abrir sai sem problemas. Esta é a interpretação que fica e que não andará longe da realidade.

A ser assim, e acredito piamente que o seja, há uma novidade a dar ao mundo: Luís Filipe Vieira já percebeu que não tomou a melhor decisão. E quando falo em decisão, não me estou a referir à saída de Jorge Jesus. Essa, a meu ver, sendo uma opção discutível, não foi o busílis da questão. Onde Luís Filipe Vieira terá falhado – e para mim falhou – foi na sucessão.

Pergunta o leitor do GoalPoint se Vieira tinha melhores oportunidades no mercado. Tinha sim senhor, mas isto tem muito a ver com a opinião de cada um. Acima de todos estava Vítor Pereira, o homem que ganhou sempre a Jesus, depois Marco Silva, que estava com a popularidade em alta após a sua saída do Sporting.

Mas havia mais. Se a política passava por potenciar jovens, Paulo Bento fê-lo em Alvalade, é benfiquista e tem tarimba a lidar com pesos pesados. Podia falar ainda de Paulo Fonseca, mas considero que ainda não é altura para regressar a um “grande” depois do presente envenenado que recebeu no Dragão e do qual, sem pressas, se está a recompor a todos os níveis.

Tenho alguma curiosidade, e sinto-me à-vontade porque vi muitos e muitos jogos do Vitória de Guimarães nos últimos anos, em saber quem aconselhou Luís Filipe Vieira a contratar o treinador. Com isto não estou a dizer que Rui Vitória é um profissional incompetente. Merece o meu respeito pela maneira como subiu a pulso no futebol português, fazendo um caminho de baixo para cima, passando por todas as etapas. Simplesmente não aprecio o estilo de jogo das suas equipas, acho-o pouco compatível com o futebol de uma equipa grande, que tem a obrigação de dominar e ganhar a clara maioria dos jogos que disputa.

Finalmente, a sua relação com os media. Esse era um dos seus pontos fortes em Guimarães. Agora tem derrapado perigosamente.

Após o jogo da Supertaça disse em alto e bom som que ninguém podia esperar que Mitroglou, com poucos treinos na Luz, pudesse resolver alguma coisa. Mas quem disse isto foi quem lançou o grego em campo nos últimos minutos em busca de um empate que evitasse a derrota.

Depois, mais recentemente, tentou beliscar o Sporting dizendo que não sabia se ia defrontar uma equipa ou 11 jogadores. Em seguida apareceram os iogurtes de Jiménez, a alusão às Descobertas e o “comido de cebolada”.

E já não chamo à colação a revelação de que Gaitán foi ao hospital porque jogou 100 minutos com tonturas. Quero acreditar que foi um lapso verbal, idêntico à sua reclamação de que ficaram por marcar penalties “contra o Benfica”.

Esta é uma semana complicada para o Benfica e ainda mais para Rui Vitória. E começou mal. A deslocação a Astana foi coroada com o apuramento para os oitavos da Champions, mas foram 22 horas passadas em viagens e ainda uma habituação a um novo fuso horário. A finalizar teremos o encontro de Braga – sem Luisão e Samaris. Vamos ser claros: quem diz que o Benfica não pode perder em Braga só pode estar a ver mal a situação, o Benfica está proibido de deixar pontos no Minho. Se deixar, o campeonato termina em Novembro para o bicampeão e o que resta da época tenderá a parecer-se com uma lenta agonia.

E será nessa altura, perante o pior cenário, que Rui Vitória terá de decidir se abre a porta e sai. Pelo seu pé.