A esta hora o suspense mantém-se quanto ao herdeiro do trono de Jorge Jesus no Benfica. A imprensa especializada vai alimentando a dúvida com uma dualidade informativa aparentemente incoerente: por um lado quase todos os media dão Rui Vitória como certo, referindo simultaneamente que Marco Silva ainda é hipótese, que Vieira estará a ser pressionado e/ou ainda que o presidente “encarnado” estará a preparar uma surpresa.

A dúvida (relativa, afinal nem uma semana passou) quanto às razões da demora do anúncio do novo treinador do SL Benfica apenas confirma o que poucos negam: Vieira estava preparado para perder (ou ficar com) Jesus, mas não esperava vê-lo assumir um rival, muito menos o Sporting. Seguisse Jesus o caminho do estrangeiro e Rui Vitória já seria, certamente, a esta hora, o treinador do Benfica. Ficasse Jesus a Luz, dentro do contexto desejado pelo presidente das “águias”, e não haveria novela. O cenário imprevisto provoca a demora inesperada.

Podcast GoalPoint episódio 4: Rui Vitória é o homem certo para o Benfica?
Oiça também a opinião de Pedro Sousa sobre Rui Vitória no podcast GoalPoint

A hesitação de Vieira não deverá prolongar-se muito mais tempo, pois de Guimarães não faltam sinais de impaciência e de vontade de capitalizar, directa (cláusula liberatória) ou indirectamente (outros benefícios oferecidos pelos “encarnados”, nomeadamente jogadores), com a passagem positiva de Rui Vitória pelos “conquistadores”. Mas o previsível desfecho (anúncio de Rui Vitória) não altera o problema de fundo para o Benfica: o técnico será, nos primeiros tempos, um treinador refém. E isso representa um risco significativo para os campeões nacionais.

O risco da opção por Rui Vitória não tem qualquer ligação com a sua competência técnica. Ficando sempre a dúvida se um treinador é capaz de dar o “salto”, Vitória tem provado trabalhar com qualidade e consistência em cenários de parcos recursos e até sabe o que é treinar no Benfica, ainda que na formação. O grande problema é eminentemente emocional. Rui Vitória não entusiasma. Nunca o fez e não o fará no Benfica. E o Benfica precisa urgentemente de entusiasmo, após a “pancada” Jesus.

Esta questão ganha relevãncia não só para o exterior (adeptos, media), mas também (e talvez com maior importância) no balneário. Os jogadores do Benfica estão habituados a uma liderança afirmativa, irascível por vezes, dentro de quatro paredes, com manifestações exteriores (mediáticas) coerentes com esse registo. Ainda que Rui Vitória seja, dentro do balneário, um “animal” completamente diferente daquele que demonstra ser fora dele, qualquer mudança de postura pública apenas fará de Rui Vitória não só um treinador refém, como também artificial, condicionado pelo contexto incontornável.

Rui Vitória corre, no fundo, um risco semelhante ao que correu Paulo Fonseca quando assumiu o FC Porto após a saída de um Vítor Pereira. Fonseca sucumbiu por razões totalmente independentes da sua capacidade técnica para a tarefa. Luís Filipe Vieira tem experiência suficiente para saber que a vertente emocional é fundamental para o sucesso e tem no FC Porto um bom exemplo de que confiar cegamente no poder da estrutura e ignorar o contexto emocional pode resultar num erro histórico de recuperação lenta e difícil.