(este artigo está escrito em português do Brasil)

Copa do Mundo de 1990. A Itália, pela segunda vez em sua história, sediaria o – então, indiscutivelmente – mais importante torneio de futebol do planeta. Da primeira vez que o sediara, em 1934, era apenas a segunda edição da competição, que teve a participação de 16 equipes, apenas quatro de fora da Europa (Brasil, Argentina, EUA e Egito) – com destaque para a ausência do então campeão Uruguai, por boicote, em resposta à ausência da maior parte das seleções europeias quatro anos antes, em solo uruguaio.

Na ocasião, o troféu ainda não detinha muito prestígio, tanto é que à exceção das partidas da própria Squadra Azzurra, os públicos foram pífios – como, por exemplo, 3000 “testemunhas” para um jogo de quartos-de-final entre Alemanha e Suécia. A Itália, na ocasião, conquistou seu primeiro título, ao derrotar a Tchecoslováquia por 2-1, após prolongamento, no então Estádio Nacional do Partido Fascista.

De lá para cá, a Copa do Mundo ganhou enorme prestígio, o que teve como “gatilho” a Copa do Mundo de 1950 no Brasil, que levou públicos de mais de 150 mil pessoas nos jogos do anfitrião no Maracanã, 200 mil na final.

A Itália voltaria a ser campeã em 1938, em solo francês, e em 1982, em Espanha. Assim, em 1990, era, ao lado do Brasil, a maior campeã, com três títulos, e aparecia como favorita a, em casa, levantar sua quarta taça. O campeonato nacional italiano era então o mais forte do mundo, congregando as principais estrelas estrangeiras, como Maradona, Van Basten, Platini e Matthäus. O AC Milan era o bicampeão europeu, e sete dos oito últimos jogadores eleitos pela France Football como o futebolista do ano na Europa atuavam por clubes italianos.

Como de costume, a seleção italiana se escorava numa defesa sólida. Uma dupla de defensores do AC Milan – o já experiente Franco Baresi (que estava no elenco campeão em 1982, embora não tenha atuado) e o jovem em ascensão Paolo Maldini, tido por muitos como os melhores do mundo em suas respectivas posições – se juntava a um trio da rival Internazionale – o excepcional guarda-redes Walter Zenga e os defensores Giuseppe Bergomi e Riccardo Ferri – para formar aquele que era então certamente o melhor ferrolho do mundo. O meio de campo também tinha muitas soluções, com nomes como De Napoli, Ancelotti, Giannini, Donadoni e Berti. O ataque, contudo, inspirava preocupação.

Constelação de estrelas e um “desconhecido”

Os atacantes escolhidos pelo manager Azeglio Vicini para compor o elenco de 22 jogadores que disputariam a competição de 1990 foram Roberto Baggio, Roberto Mancini, Andrea Carnevale, Gianluca Vialli, Aldo Serena e Salvatore Schillaci. Baggio, então com 23 anos, vinha de um ótimo campeonato italiano, do qual fora o vice-artilheiro, anotando 17 gols pela Fiorentina que, contudo, terminara nas últimas posições, pouco acima da “linha de água”. Vialli e Mancini formavam a prestigiosa dupla de ataque da Sampdoria, clube que vinha em boa forma nos últimos anos, tendo terminado em quinto lugar nas duas últimas épocas (viria a conquistar seu primeiro e até hoje único título em 1991). Carnevale jogava pelo Napoli, que disputava com o Milan a condição de maior clube italiano à época, sendo o então campeão da Série A e tendo conquistado dois títulos e dois vices nas últimas quatro disputadas. O consagrado Serena (que também atuava como médio), remanescente da Copa de 1986 (assim como Vialli), atuava pela Internazionale e fora o principal marcador na época anterior (1988/89), com 22 gols.

Schillaci, por sua vez, era um jogador ainda não muito conhecido. Até a época anterior, estava no pequeno Messina, disputando a Série B italiana, onde foi o principal artilheiro (23 gols em 35 partidas), mas a equipe não conseguiu a promoção. Chegou então à Juventus, onde fez ótima época em 1989/90, anotando 15 gols em 30 encontros e terminando em quarto lugar na tábua de marcadores, naquela que foi sua primeira aparição na Série A. Após ter feito uma única partida nas seleções de base, foi convocado à principal pela primeira vez em março de 1990, a poucos meses da Copa, para um amigável contra a Suíça. Talvez mais pela falta de opções do que pelo futebol que havia mostrado, Schillaci logrou estar na lista dos 22 convocados para a Copa. Venceu a concorrência contra nomes como Gianfranco Zola, Pierluigi Casiraghi e Daniele Massaro.

Após a Copa do Mundo, Schillaci faria apenas mais oito partidas pela seleção italiana, anotando somente um gol (este numa derrota por 2-1 frente à Noruega no apuramento para a Eurocopa de 1992, torneio para o qual não viria a ser convocado). Pela Juventus, anotaria outros 11 gols (em 60 partidas) em mais duas épocas, se transferindo para a Internazionale, onde disputou 30 jogos em duas temporadas, anotando 11 gols. Em seguida, se transferiu ao Jubilo Iwata, do Japão, onde ficou por mais três épocas e encerrou a carreira. Seria, enfim, um desconhecido do grande público, um jogador de apenas uma única boa época pela Juventus e nada mais. Seria! Voltemos à Copa do Mundo de 1990.

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