Ascensão discreta

A Itália faria sua estreia diante da Áustria, num Estádio Olímpico de Roma esgotado. A dupla de ataque escolhida pelo manager para o debut era composta por Gianluca Vialli e Andrea Carnevale. A maior parte da imprensa esperava que a aposta fosse na dupla de ataque da Sampdoria, a fim de aproveitar o entrosamento, mas não foi o caso. Vialli atuava como ponta-de-lança, enquanto Carnevale era um avançado que atuava mais pelos flancos, algo típico àquele tempo. A atuação ofensiva da esquadra transalpina era pouco convincente e, aos 75’, o mister decidiu dar uma chance a Schillaci. Apenas três minutos depois ele anotaria o gol da magra vitória por 1-0. Não foi o suficiente, porém, para ganhar a titularidade: ele permaneceu no banco de reservas para o jogo seguinte, contra o EUA, novamente em Roma, mantida a dupla de ataque. Não obstante, embora a Itália até vencesse a partida por 1-0, gol de Giannini, Schillaci substituiu Carnevale logo aos 51’ e fez o suficiente para estar entre os 11 da próxima seguinte.

Descrente com a dupla inicial e aproveitando que a equipe já estava apurada à próxima fase, o mister optou por uma modificação total e alinhou Baggio e Schillaci. Na melhor atuação de todo o time até ali, a Itália bateu a perigosa Tchecoslováquia (que também vinha de duas vitórias e discutia a liderança do grupo), com gols de Schillaci logo aos 9’ e uma pintura de Baggio aos 78’. Ambos jogaram os 90 minutos, enquanto Vialli e Carnevale não ficaram nem no banco (à época, só era possível escolher 5 jogadores para tal).

A Itália terminou em primeiro lugar o seu grupo, com 100% de aproveitamento (o que apenas o Brasil fez também), o que lhe garantiu a possibilidade de seguir jogando em Roma.

A dupla de ataque com Baggio e Schillaci foi mantida para o jogo seguinte, oitavas-de-final contra o arrojado Uruguai. A Itália novamente mostrou muito controlo defensivo, mas o ataque dessa vez não funcionou a contento. Aos 52’, o mister fez uma substituição audaciosa, ao retirar o médio Berti para incluir o mais ofensivo Serena. Finalmente, aos 65’, Schillaci abriu o placar, para alívio dos mais de 73 mil adeptos, que novamente lotavam o Estádio Olímpico. Baggio seria substituído por Pietro Vierchowod, aos 79’, para recomposição defensiva. Serena anotaria o segundo gol aos 83’, para dar tranquilidade e números finais à partida.

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O estilo inconfundível de “Totò” Schillaci

Seguindo em Roma, a Itália enfrentaria a seguir a Irlanda, equipe que também ostentava qualidades defensivas bastante relevantes, tendo sofrido apenas dois gols em quatro jogos, mas com deficiências ofensivas de mesma monta. Baggio e Schillaci formariam a dupla de avançados uma vez mais. A Itália, dessa feita, não demorou muito a encontrar o caminho do gol: Schillaci anotou aos 38’, para mais uma vez não passar em branco. Era o seu quarto gol em cinco partidas. Baggio teve nova atuação discreta e foi substituído por Serena aos 70’. Com boa atuação defensiva, a Itália chegou ao seu quinto jogo sem sofrer gols e venceu pelo placar mínimo pela terceira vez. Na partida seguinte, o guarda-redes Zenga bateria o recordo histórico de minutos (517) sem sofrer gols, até hoje mantido.

Maradona e a rivalidade Sul/Norte

Na partida seguinte, a Itália enfrentaria a Argentina de Diego Maradona, campeã do mundo, porém vindo numa caminhada trôpega na competição (duas vitórias, dois empates e uma derrota). O jogo estava agendado para Nápoles, cidade onde Maradona era como Deus, atuando há cinco épocas pelo Napoli, período no qual conquistou dois Scudettos (os únicos de toda a história do clube) e dois vices e a Copa da UEFA (único título internacional de sua história).

O polêmico jogador argentino procurou se valer disto, invocando toda a problemática da difícil relação histórica entre o Sul (pobre) e o Norte (rico) italianos, o que remete à complicada unificação do país e aos sentimentos separatistas sempre e até hoje em voga. Segundo Maradona, ele representava o orgulho e espírito napolitanos muito mais do que a seleção italiana, esculpida ao gosto das metrópoles do Norte (Roma, Milão e Turim). Há quem diga que a Federação Italiana chegou a cogitar inverter os estádios com a outra semifinal, que seria disputada em Turim, mas a FIFA disse não ser possível. Os jogadores italianos procuraram rebater as provocações de Maradona, especialmente Schillaci, nascido em Palermo, que fica também no Sul. Afinal, os relatos dão conta de que nas arquibancadas, os adeptos se dividiram entre o silêncio e uma tímida torcida pela Squadra Azzurra que, de todo modo, parecia não estar jogando em casa.

Embora logrando amenizar sua situação fora do relvado, a Argentina tinha muitos problemas dentro dele. Maradona não estava no melhor de sua forma, pois vinha de uma época temperada por lesões. O goleiro titular, Nery Pumpido, se lesionara no jogo de estreia e estava fora da Copa. O time não tinha grandes estrelas, embora carregasse a maturidade propiciada pela conquista do título em 1986. De todo modo, nomes como o explosivo avançado Claudio Caniggia, o sólido defensor Óscar Ruggeri e o autor do gol do título no México, o meia-atacante Jorge Burruchaga, impunham respeito. A Argentina perdera na estreia, o jogo de abertura da Copa (então, feito pelo atual campeão; hoje, pelo país-sede), para o surpreendente Camarões, e se recuperara vencendo a URSS, mas tropeçara novamente num empate diante da Romênia, avançando apenas como terceira colocada em seu grupo.

Nos oitavos-de-final, diante de um dominante Brasil, sofreu pressão excessiva desde o início, mas Maradona tirou uma grande jogada da cartola e deixou Caniggia sozinho para anotar o único gol do jogo. Nos quartos-de-final, empate por 0-0 numa atuação ruim diante da Iugoslávia e vitória nos pênaltis.

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