A posição de lateral-direito tem sido, porventura, a mais problemática dentro do plantel do FC Porto nos últimos meses. No Verão passado não só saiu o titularíssimo Ricardo Pereira para o Leicester, como também o seu sucessor natural, Diogo Dalot, para o Manchester United. Para esta última temporada chegaram Janko e João Pedro, mas a posição acabou por ser divida entre Éder Militão, Maxi Pereira, Wilson Manafá e Jesús Corona.

Agora, o cenário volta a ser alterado: Militão seguiu para o Bernabéu, Maxi Pereira já vai com 35 anos, Manafá não impressionou nos jogos de maior exigência, e Corona tem demasiada importância a jogar como extremo para ser colocado em posição mais recuada. Uma nova peça era necessária para competir pela posição e Renzo Saravia foi o escolhido.

Selecção argentina apenas enquanto sénior

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Saravia teve o pior rating no #ARGCOL

Formado no Belgrano, Saravia fez cinco épocas no “El Pirata” até conseguir o salto para o Racing. Foi aí que mais se destacou, e aos 26 anos consegue então a sua primeira experiência no futebol europeu, a troco de €5,5M saídos dos cofres dos “dragões”. O lateral-direito foi o quarto jogador mais utilizado (1792 minutos) do Racing esta temporada, na qual a equipa – capitaneada pelo ex-“dragão” Lisandro López – se tornou campeã do seu país. Consequentemente, foi convocado para a Copa América, sendo até titular no primeiro jogo, contra a Colômbia, mas a prestação não foi a melhorEle é visto por muitos no seu país como a melhor opção para a posição na selecção “albiceleste”, mesmo nunca tendo representado a Argentina durante a formação. Resta saber se isso se deve à falta de opções de qualidade ou se Saravia tem nível para estes patamares. Tanto os números como as imagens parecem apontar mais para a primeira hipótese.

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Velocidade e fantasia… com exageros

Tratando-se o FC Porto de um “grande” português, é natural olhar primeiramente para as características do jogador com bola. Aí, o argentino mostra ser fora do comum.

Saravia denota grande aptidão para chegar a zonas de cruzamento, onde o faz com frequência (3,0 por 90 minutos) e razoável eficácia (20%). Números similares aos que Ricardo Pereira exibia no Dragão, por exemplo. Apesar disso, fez apenas duas assistências nas últimas quatro temporadas na primeira divisão argentina e tem um volume muito baixo de passes para finalização de bola corrida (0,7 p/ 90m) – cerca de metade dos de Ricardo, e menos que Maxi Pereira ou Manafá –, não tendo depois responsabilidade sobre bolas paradas para poder compensar através das mesmas como faz Alex Telles. É natural que, inserido num conjunto com avançados que gostam de finalizar a partir de cruzamentos, esta sua estatística suba ligeiramente, mas mostra um pouco da falta de diversidade que o jogador tem no último passe.

No momento de construção torna-se muitas vezes um problema para o seu conjunto, particularmente quando pressionado. É que o argentino soma muitos maus controlos de bola (2,3). números mais negativos até que os de Manafá – o lateral com mais maus controlos de bola na Liga NOS (2,0) –, falha uma enorme quantidade dos passes que faz para a frente (50% de eficácia, com as outras opções do plantel a somarem mais de 60%) e peca ainda bastante no que toca ao passe longo. Com eficácia de 30%, Saravia fica longe dos números de Maxi (40%) e Manafá (59%). Na Liga NOS só dois laterais acertam menos passes longos e só seis concluem passes verticais com menor eficácia.

Ainda em posse, Saravia revela-se pela sua combinação de velocidade e capacidade técnica. O lateral é mesmo muito rápido, e em progressão tem grande capacidade de ganhar faltas (2,6 no total, 0,4 no último terço), o que será extremamente útil para o conjunto de Sérgio Conceição, um dos que mais tira partido estes lances em toda a Europa. No entanto, a sua capacidade de drible, somada à tomada de decisão, deixa um pouco a desejar. Apesar de procurar estas situações com muita frequência, apenas 35% das suas 2,7 tentativas de drible são eficazes, e acaba por ser muitas vezes desarmado (1,2 por jogo), mesmo em “zonas proibidas” – 1,9 perdas de posse no primeiro terço e 0,5 desarmes sofridos no próprio meio-campo. O argentino vai precisar de muito trabalho para deixar de ser um autêntico perigo para a sua equipa em zonas recuadas.

Dificuldades perante dribladores

No contributo defensivo, a tomada de decisão volta a ter um papel de peso, principalmente em lances de um-para-um. Apesar de somar um número elevado de tentativas de desarme (4,4) – algo normal em laterais argentinos – , é muito intempestivo na sua abordagem e acaba por falhar uma grande porção dos mesmos (31%). Assim, é ultrapassado em drible com enorme frequência (1,4), mais do que qualquer lateral no campeonato português e muito mais que Manafá (0,5) ou Maxi (0,6).

Saravia é o tipo de lateral que se dará bem a defender extremos mais clássicos, pela agressividade no desarme e boa quantidade de cruzamento bloqueados (0,6), mas que terá muitas dificuldades a defender extremos de drible, com movimentos mais imprevisíveis. É bastante mais activo que as outras opções do Porto no que toca à defesa de zonas recuadas, somando mais alívios (2,6) e alívios na área (1,5) que as outras opções para a posição, mas não mostra tanta robustez física quanto os seus homólogos. Sendo esta uma faceta que Sérgio Conceição tende a valorizar, Saravia vence menos duelos aéreos defensivos (48%) que as outras opções dos “dragões” para a mesma posição.

Conclusão

O lateral argentino traz com ele algumas valias interessantes, mas tendo em conta o seu custo e idade (26 anos), era de exigir que o novo lateral-direito do FC Porto tivesse menos arestas por limar no seu jogo. A defender, tal como se viu no passado Sábado, está longe de dar garantias, sobretudo contra adversários mais fortes, e com bola as tomadas de decisão nem sempre são as melhores. Com a presença na Copa América a adiar possivelmente a sua chegada à pré-época portista, vai demorar até Sérgio Conceição conseguir tirar o rendimento desejado do internacional argentino… isto se o conseguir fazer de todo.