A manhã de 27 de Maio, quarta-feira, foi quando o FBI deteve nove altos dirigentes da FIFA lançando assim um surpreendente “terramoto” sobre aquela que alguns parecem esquecer ser a indústria de entretenimento mais popular no mundo: o futebol.

Desde então o interesse dos amantes do futebol foi naturalmente absorvido pelo tema. Prova disso é o facto de, no momento em que escrevo este artigo de opinião, a hashtag #FIFA integrar o “top 10” de temas mais populares nas redes sociais, sendo que refiro-me apenas a Portugal. Nos EUA, país onde o futebol ocupa um tempo de antena residual, o tema #FIFAcongress surge aliás no terceiro posto das tendências. Tornam-se assim naturais as capas da imprensa internacional que, nos últimos dois dias, têm dado ao tema a devida importância, por vezes maior do que o papel que o país e sociedade originárias reservam ao desporto-rei.

Decidi perceber que atenção e importância conferiu a imprensa portuguesa ao escândalo FIFA nos últimos dois dias para melhor entender o destaque conferido e consequente correspondência para com os interesses referidos no parágrafo anterior. Para melhor ajudar o leitor a perceber o que encontrei, graduei os destaques de capa que encontrei nos seguintes níveis: 1 – manchete (notícia mais relevante) 2 – Destaque secundário (segunda notícia mais relevante), 3 – Destaque terciário (rodapés ou pequenas chamadas de capa para o tema). Apesar da defesa que já aqui fiz da imprensa portuguesa face à cultura futebolística vigente em Portugal, fui desarmado pelas conclusões a que cheguei.

PESO/DESTAQUE INFORMATIVO ATRIBUÍDO PELOS JORNAIS PORTUGUESES AO #FIFAGATE (Capas)

TítuloEstatuto28 de Maio29 de Maio
C. Manhãdiário generalistaTerciárioTerciário
J. Notíciasdiário generalistaTerciárioTerciário
Públicodiário generalistaTerciárioTerciário
D. Notíciasdiário generalistaInexistenteTerciário
Jornal Idiário generalistaTerciárioInexistente
Solsemanário generalista-Inexistente
Sábadosemanal generalista-Inexistente
Visãosemanal generalista-Inexistente
A Boladiário desportivoTerciárioTerciário
Recorddiário desportivoTerciárioInexistente
O Jogodiário desportivoTerciárioInexistente

Nota: A edição desta semana do Semanário Expresso não se encontrava ainda disponível no momento em que concluí esta análise.

O cenário é esclarecedor. Apesar da importância que o futebol tem na sociedade e consequentemente na agenda mediática dos media portugueses, nenhum dos mais importantes diários e semanários valorizou o escândalo FIFA acima do equiparável a um simples rodapé. O caso torna-se ainda mais grave se percebermos a quantidade de media que optaram por não dar qualquer destaque ao caso na edição desta sexta-feira, precisamente 24 horas após a digestão dos acontecimentos e no dia em que se vota a Presidência da FIFA. A comparação desta agenda (dando algum desconto aos títulos semanários já publicados, por uma questão de timing) com o que a imprensa internacional nos tem oferecido nos últimos dias (em papel e online) é esmagadora, deixando a dúvida se o desporto mais popular em Portugal não será, porventura, o críquete.

Explicações para este cenário? A primeira a eventual falta de noção do que é realmente importante e relevante, mas essa é uma tendência que há muito caracteriza a imprensa portuguesa ou não se debatesse esta, cada vez mais, com o desafio da sobrevivência. A segunda, mais preocupante, a eventualidade de ainda hoje se decidirem agendas mediáticas sem atentar nos temas que prendem o interesse do público, apesar das inúmeras ferramentas à disposição para esse feito. A terceira o “paroquialismo” que tantas vezes aqui refiro, o nosso complexo “aldeão”, que nos leva a dar tanta importância aos penalties mal assinalados e às “tricas” de telenovela do nosso futebol, numa constante e profunda lamuria para com o nosso destino, sem darmos a devida atenção ao que realmente se passa na “metrópole” (neste caso a FIFA) e que define e influencia boa parte do nosso choro.

Pode haver ainda uma quarta razão. Sempre que me deparo com contextos deste tipo, recordo um editorial de Alexandre Pais, aquando da explosão mediática em redor do “apito dourado”, explicando as razões pelas quais defendia a não atribuição de excessiva atenção ao tema, como forma de proteger o futebol. Prefiro não acreditar que ainda exista hoje quem assim pensa, ignorando que a defesa do futebol passa precisamente pela forma como se abordam momentos como os que vivemos esta semana, durante a qual foi colocado a nu o prejuízo global ao qual foi sujeito o futebol que todos apreciamos mas que, por cá, não parece merecer a devida atenção nos momentos cruciais.