Sporting 1 – FC Porto 1: Ora jogas tu ora jogo eu

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Naby Sarr teve nova noite para esquecer, ao entregar o empate ao FC Porto com um autogolo (foto: J. Trindade)
Naby Sarr teve nova noite para esquecer, ao entregar o empate ao FC Porto com um autogolo (foto: J. Trindade)

Raras são as vezes que temos a oportunidade de assistir a um jogo tão repartido. Não em equilíbrio global e distribuído pelos 90 minutos, mas efectivamente partido ao meio. O intervalo como que inverteu completamente a tendência do “clássico” entre Sporting CP e FC Porto, qual espelho em que o reflexo dos primeiros 45 minutos vestiu de “azul-e-branco” nos segundos. Mesmo somadas e subtraídas oportunidades de um lado e de outro, fica uma ideia de que a lógica absoluta e quase matemática imperou no resultado final.

As duas formações mandaram no jogo em cada metade, graças aos jokers Nani e Óliver Torres, não deixando, contudo, de mostrar, nos números e na forma de jogar, as características que as têm definido até agora nesta Liga. FC Porto sempre com muita bola e precisão de passe, mesmo no pior período da equipa, nos primeiros 25 minutos. Sporting pragmático, veloz nas transições e objectivo no seu futebol.

Posicionamento de Nani surpreende

Julen Lopetegui deixou-se surpreender claramente pela estratégia inicial do Sporting. Pressão muito forte dos “leões” no meio-campo adversário, a começar pelo ponta-de-lança Islam Slimani, passando por João Mário, Nani e André Carrillo. O golo logo aos dois minutos, de Jonathan Silva, foi o retrato do que se passou na primeira metade. Nani caiu na zona central, junto de João Mário, perante um meio-campo do Porto só com Casemiro como médio-defensivo, e foi aqui que os portistas perderam o controlo do jogo nesta fase, só o recuperando quando, a dada altura, Rúben Neves passou a surgir mais recuado a ajudar o brasileiro na recuperação. Até lá o Sporting criou muito perigo e empurrou o FC Porto para a sua área.

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Por outro lado, nos momentos ofensivos, Rúben Neves e Herrera subiam demasiado à espera de receber a bola de Casemiro, deixando o “miolo” visitante partido e vulnerável. A solução eram os passes longos para Jackson Martínez, que perdeu muitos duelos aéreos com os centrais leoninos. O colombiano terminou o jogo com 11 duelos pelo ar e ganhou apenas 27,3% destes. Outra vítima foi Brahimi, que teve muito pouca bola e quando a teve foi quase sempre longe da área sportinguista.

Ainda assim o FC Porto conseguiu ter mais o esférico até ao intervalo, 59% contra 41 dos “leões”, 242 passes contra 163 com uma eficácia de 81,8% para 73,6%. Mas no que toca ao ataque, tudo ao contrário: Sporting com oito remates e Porto apenas três, sendo que os da casa acertaram quatro vezes na baliza e os forasteiros nenhuma. O meio-campo sportinguista foi o grande responsável por esta tendência, pegando no jogo e impondo a sua lei, em especial William Carvalho, que foi o pilar da consistência sportinguista.

Óliver Torres, o cérebro

A falta de ligação no meio-campo do FC Porto era óbvia e Lopetegui percebeu isso mesmo ao intervalo. Saiu um apagado Ricardo Quaresma e também Rúben Neves, entrando Tello e Óliver Torres. E a partir destas alterações o jogo deu uma volta completa. O jovem Torres, que falhou os últimos dois encontros da Liga por lesão num ombro, entrou para pegar na bola e colar os “pedaços” da sua equipa. Ligou os sectores e, em 45 minutos, somou oito recuperações de bola, fez dois passes para ocasião e 21 passes no meio-campo adversário, quase tantos quantos Danilo (29) e Herrera (28), que actuaram os 90 minutos.

O Sporting não conseguiu anular Torres, dado que o espanhol tanto ocupava a zona central do terreno como recuava e caía nas alas, fugindo às marcações. Os portistas conseguiram ter ideias, envolvência e último passe, chegando ao empate, apesar de num autogolo de Sarr, e criando excelentes ocasiões, valendo Rui Patrício aos de Alvalade.

William, Torres e os treinadores

Os destaques deste jogo são vários. Para além das escolhas dos treinadores em cada uma das metades, há elementos que merecem referências elogiosas. A começar por Nani, pela capacidade com que pressionou e ocupou inteligentemente zonas centrais do terreno, facto com que o Porto nunca soube lidar. O internacional português acabou com quatro remates à baliza, dois enquadrados, e um passe para ocasião. Carrillo fintou, correu, centrou, foi um perigo e fez dois passes para ocasião. João Mário, pela clarividência e certeza na entrega (88,6% dos 35 passes certos). E por fim William Carvalho, a grande figura dos “leões”, com 46 passes e 82,6% de precisão, 63 toques na bola (o máximo no Sporting), oito dos 16 duelos ganhos, quatro intercepções e 11 recuperações de bola.

Do lado do Porto, Herrera foi quem melhor manteve o nível durante os 90 minutos, com 59 passes e 81,4% de eficácia, cinco entradas e cinco recuperações. Brahimi destacou-se, mais uma vez, pela invulgar capacidade para realizar passes para ocasião (mais quatro neste encontro). Jackson Martínez, com quatro remates, dois deles enquadrados, foi sempre um perigo, e Marcano, com 11 alívios, foi quase intransponível. Por fim Óliver Torres, não tanto pelos números que o tenham feito destacar, mas pela importância táctica que permitiu ao FC Porto “virar a mesa” e salvar um ponto.

Pedro Tudela
Pedro Tudela
Profissional freelancer com 19 anos de carreira no jornalismo desportivo, colaborou, entre outros media nacionais, com A Bola e o UEFA.com.
GoalPoint

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