No momento de planear o plantel de uma equipa candidata ao título, um dos grandes focos estará – mais do que no “onze” titular – na diversidade de opções que o treinador terá à sua disposição ao longo da temporada. Agora que nos encontramos na fase crucial da época, com jogos decisivos acumulados num curto espaço de tempo, os treinadores têm sido forçados a utilizar um maior leque de jogadores.

O Sporting é uma destas equipas: estando a lutar por três competições, após já ter vencido a Taça da Liga, Jorge Jesus tem agora o seu plantel à prova e os resultados não têm sido positivos. Grande parte da crítica tem questionado a qualidade das opções de banco dos “leões”, mas ofereço em seguida uma perspectiva diferente sobre esta situação.

A verdade é que haverá sempre uma diferença considerável de qualidade entre as primeiras e segundas opções de qualquer equipa. Mas para constituir um plantel para abordar várias competições há, sim, duas formas de abordar as “segundas escolhas”: como opções estilisticamente similares às opções principais ou como jogadores de características diferentes às dos titulares.

Uma abordagem não é necessariamente melhor que a outra, mas, enquanto a última dará ao seu treinador um leque mais diverso de opções a partir do banco, obriga o mesmo a alterar – ligeira ou profundamente – o seu sistema de jogo quando tem de rodar uma parte do “onze”. Para além disso, força-o ainda a dar mais minutos a esses jogadores no geral – independentemente das necessidades –, já que a própria equipa se necessita de familiarizar com eles.

Resistência à mudança

Aqui parece estar o grande problema do Sporting neste início de 2018. Os minutos de jogo têm sido dados quase sempre aos mesmos jogadores e, agora que há rotação (forçada) no “onze”, Jorge Jesus mantêm-se relutante no que toca a alterar ou adaptar o seu sistema para a entrada dessas opções diferentes.

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Wendel tem características interessantes mas não soma ainda qualquer minuto

Entre Liga NOS e Liga dos Campeões, os “leões” têm nove jogadores com mais de 2000 minutos jogados e outros três com mais de 1800. Sem contar com o recém-chegado Rúben Ribeiro, que acumulou muito do seu tempo de jogo ao serviço do Rio Ave, o 13º jogador com mais minutos é Bruno César, com cerca de 700. A diferença é enorme e mostra um Sporting que escolheu mexer pouco – o que também contribuiu para o desgaste que se vai sentido – e está agora forçado a trazer jogadores muito pouco utilizados para o “onze”.

As diferenças entre as características dos vários jogadores leoninos são claras. Na linha defensiva, André Pinto é a primeira opção para render a dupla habitual, mas enquanto até oferece mais no que toca a intercepções, por exemplo, simplesmente não tem os atributos com bola – como podemos ver pelos passes no meio-campo adversário e passes no último terço – que tornam Mathieu essencial.

No meio-campo, Petrovic é o jogador cujas características mais se assemelham às de William Carvalho e, até este momento, o sérvio jogou menos de meia-hora pelo clube nas duas competições em análise. Quando o internacional português não está presente, entra para a posição Battaglia, que em nada espelha o jogo de William. Os números que reflectem as acções com bola dos jogadores, principalmente no capítulo do passe, são incomparáveis – e incomparável fica o controlo da equipa sob os seus jogos.

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Os extremos que não se tocam

A partir das linhas as escolhas recaem quase sempre sobre Acuña e Gelson. Ambos demonstram uma boa capacidade defensiva e cada um contribui ofensivamente à sua maneira: Acuña por via dos seus cruzamentos e Gelson tanto pela capacidade de drible, como pela de finalização. Só Dost converte uma maior percentagem de remates do que Gelson neste plantel.

Rúben Ribeiro chega ao Sporting com números bem interessantes, mas esses foram acumulados num sistema bastante diferente e, de qualquer forma, tem sido utilizado mais pelo corredor central dos “leões”. Daniel Podence está lesionado mas também tem sido visto como um segundo avançado deambulante, provavelmente pela menor capacidade defensiva. Já Bruno César e Bryan Ruiz não são o tipo de desequilibrador que é Gelson. Se era sentida a necessidade de ter um jogador com as características do internacional português, esta poderia ter sido colmatada com Matheus Pereira, que se encontra emprestado ao Chaves.

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Rápido, com boa capacidade de drible e excelente número de passes para finalização. Até no que toca a visar a baliza o faz com mais frequência que Gelson – de zonas mais afastadas, mas esse factor corrigir-se-ia naturalmente ao jogar por uma equipa de calibre superior.

O “Yin” e o “Yang” do ataque

Na frente a diferença é clara: Doumbia e Dost oferecem soluções absolutamente distintas à equipa. Tal como já mencionámos num artigo após a partida frente ao Estoril, Doumbia não é um target man, logo é pouco aconselhável à equipa continuar a colocar uma enorme quantidade de cruzamentos pelo ar na área imaginando nesta o internacional holandês.

Tendo os dois números similares de remates na área, Doumbia faz mais que isso. Precisa de espaço para se envolver com a sua velocidade e até tentar acções de drible sobre o último defesa. Não será o homem ideal para receber passes longos e segurar a bola até à chegada de apoio.

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Este Sporting é refém do seu talento: muito do seu sucesso tem partido da qualidade muito acima da média dos seus melhores jogadores, Gelson Martins e Bas Dost, e não de um sistema ofensivo consistente que eleve a qualidade de toda a equipa. Sabendo que quando este tipo de jogadores estão fora do “onze” a equipa se vai ressentir, o treinador tem de saber integrar outros nos seus lugares ou o plantel tem de ser construído de forma a ter alternativas estilisticamente similares. E nos quadros do clube estão Petrovic, Matheus e até Spalvis que se assemelham às opções já no plantel. Se estes não são da confiança do treinador, investimentos como os de 3M€ em Doumbia poderiam ter sido feitos em alternativas diferentes.

Alternativas diversas à disposição poderão ser um valor tremendo para qualquer plantel, mas quando só existe uma abordagem, estas perdem qualquer vantagem. Uma espécie de problema de “quadratura do círculo”, e não estou a falar de programas de debate político.