Intervalo no Estádio do Restelo e Jorge Jesus prepara uma substituição. Wendel está preparado para entrar e os comentadores da SportTV lançam como hipótese de saída quase meia equipa até acertarem no verdadeiro visado: Fábio Coentrão.

Normal, por um lado. Afinal de contas não é habitual ver sair um defesa com a equipa em vantagem no marcador. Anormal, por outro. É que esta seria a décima vez que Fábio Coentrão era substituído num jogo do Sporting para a Liga NOS, quase metade dos 21 jogos em que foi titular.

Nenhum outro defesa foi substituído tantas vezes esta época no nosso campeonato. Djavan, lateral-esquerdo do Chaves, com oito substituições, é quem mais se aproxima, mas se procurarmos entre os “três grandes”, Álex Grimaldo é quem se segue. O espanhol foi quatro vezes substituído por Rui Vitória, menos de metade das de Coentrão.

É sabido que Fábio Coentrão teve vários problemas físicos nas últimas épocas e que a sua condição física tem sido gerida “com pinças”, mas, no mínimo, esperava-se que chegasse a esta altura capaz de aguentar os 90 minutos com maior regularidade. No entanto, a falta de “pulmão” de uns é a oportunidade de outros e, nos últimos tempos, tem emergido como solução o recuar de Marcos Acuña para lateral-esquerdo.

O argentino já trazia da sua terra-natal a fama de ser muito útil no momento sem bola, e não era só fama. Quando em Julho o referenciámos como um dos jogadores mais interessantes a actuar no campeonato local, já apontávamos que “consegue ainda ser muito forte no momento sem bola e a apoiar defensivamente por dentro, como Jorge Jesus tanto gosta”, não espantando por isso a opção do treinador. Sampaoli também já o tinha testado com sucesso na selecção e é muito provável que seja ele o dono de toda a ala esquerda no Mundial.

Mas será fácil encontrar nos números essa aptidão de Acuña para desempenhar funções defensivas? A resposta é sim. Comparemos os números do argentino com os de Fábio Coentrão e Lumor, assim como das outras opções habituais dos “três grandes” para extremo-esquerdo.

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Médias por 90 minutos na Liga NOS 17/18 (Fonte: GoalPoint/Opta)

À vista fica a importância e eficácia de Acuña sem bola. Nenhum dos quatro jogadores em comparação desarma adversários mais vezes que o argentino, e até mesmo Fábio Coentrão fica a perder nessa comparação. O jogador das Pampas raramente é driblado e tem uma eficácia nos duelos defensivos pelo chão de 89%, números de fazer “inveja” a muitos e bons laterais. Nas intercepções os seus números são naturalmente mais baixos que os das actuais opções, visto que se posiciona menos vezes de frente para o jogo, mas ainda assim revela uma boa média. Até nos duelos aéreos não está longe de Coentrão e Lumor, e recuando no terreno, a percentagem tem tendência a melhorar, visto passar a disputar os duelos com jogadores tendencialmente menos fortes pelo ar.

Focando novamente a análise na qualidade de desarme, Acuña é, entre os 226 flanqueadores a nível europeu com pelo menos 30 tentativas esta época, aquele que apresenta a melhor eficácia.

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Curioso que o segundo lugar neste ranking pertença a outro extremo dos “grandes”, Jesús Corona, mas enquanto Acuña já soma 73 tentativas de desarme na Liga NOS, Corona tem somente 40.

Se Jesus quiser deixar de “queimar” uma substituição quase todos os jogos, terá chegado a altura de apostar definitivamente em Acuña enquanto lateral-esquerdo, tal como fez, curiosamente, com o próprio Fábio Coentrão no Benfica. Todos os indicadores vão no sentido de validar Acuña como a melhor opção no plantel para esta posição, restando agora encontrar alguém que garanta o mesmo rendimento do argentino para jogar à sua frente.

A alternativa será fixar definitivamente o esquema de três defesas-centrais. Para além da qualidade defensiva e ofensiva, Acuña possui também a resistência física para fazer todo o flanco com qualidade, e ainda recentemente Jorge Jesus dedicou grandes elogios à exibição do argentino contra o Atlético de Madrid. Para fazer o mesmo na direita, o Sporting também tem opções, não do mesmo nível, mas igualmente equilibradas, como são Piccini, Ristovski ou até Battaglia.

Numa altura em que o futuro de Fábio Coentrão no Sporting parece incerto, a sua saída, tal como acontece durante os jogos, deverá ser encarada não como um problema, mas como a oportunidade. Afinal de contas as melhores memórias recentes dos “leões” aconteceram em jogos nos quais actuaram com três defesas, um sistema em que o português terá muitas dificuldades em encaixar nos dias de hoje.