Não é de hoje a nossa postura. Mais do que criticar o futebol que temos, importa-nos promover o futebol que queremos, seja na forma de o estudar e apreciar como também de o comunicar. Este artigo de mera opinião surge na sequência dessa postura, e encerra um desafio a quem possui as melhores ferramentas para o aceitar. Mas primeiro um apelo ao neurónio.

Os “Indignados do Prolongamento”

Todas as segundas e terças-feiras a coisa se repete, sobretudo nas redes sociais. Mais ou menos durante e após a transmissão do popular (quer se queira quer não) programa “Prolongamento” da TVI24 dá-se uma torrente de críticas e desabafos, mais ou menos contidos e/ou injuriosos para com o programa, em particular para com um dos seus protagonistas, Pedro Guerra. A coisa assume o papel de expoente máximo da insatisfação do adepto para com o tipo de conteúdos que (sobretudo, mas não só) as TVs oferecem, acerca do futebol nacional. Supostamente o adepto não gosta. Mas será que não gosta mesmo?

Sobre os (de)méritos dos programas televisivos que as nossas televisões nos oferecem já nos pronunciámos mas neste particular a coisa faz-me recordar um célebre “escândalo televisivo” com muitos anos (1991), relacionado com a exibição de um filme japonês de seu nome “Império dos Sentidos” na RTP, e que gerou controvérsia nacional. Recordo-me de, ainda miúdo, ouvir no dia seguinte uma senhora de alguma idade caracterizar o conteúdo como vergonhoso, à medida que ia avançando na identificação cronológica das cenas do filme, quais “tags” mentais que registara, até chegar a uma fase, já próxima da conclusão, que já envolvia “ovos” e “amputações”, “frames” potenciadoras da sua revolta. “Tenro” e incauto intrometi-me perguntando:

– A senhora desculpe mas… se não gostou do filme porque o viu até final?

A minha pergunta silenciou os outros interlocutores da cidadã e fizeram-na mirar-me com olhos bem arregalados e fulminantes. Não obtive resposta, apenas um virar de costas seguido de um “francamente!”.

Esta memória aplica-se a todos os “indignados do Prolongamento” ou de qualquer outro conteúdo pobre, infelizmente maioritário, que nos é oferecido hoje em dia na TV, acerca do futebol. Se não gosta porque vê? Ou melhor, sabia que, se deixar de o ver, está a contribuir da única forma realmente influente para o fim desse mesmo conteúdo? Os Guerra, Inácio, Gomes da Silva, Serrão (inserir qualquer nome cujo discurso/proposta ideológica mais lhe desagrade) estão na TV a ganhar a vida deles. E ganham-na porque são vistos, por si ou por alguém próximo de si. Se são vistos a culpa é sua, do espectador, que não encontra algo mais interessante para ocupar o seu tempo do que o conteúdo que, passadas umas horas, descreve como pobre, enviesado, tendencioso, insustentado ou mesmo inaceitável dando-lhe no fundo ainda maior exposição. Pense nisso e faça pensar quem o rodeia. Talvez a coisa tenha impacto. Ou então renda-se aos seus gostos, que no fundo são circunscritos pelas suas opções. O que não faz muito sentido é fazer papel de idosa do “Império dos Sentidos”.

Um desafio à Cision

Mudando a agulha, mas mantendo-nos infelizmente no quadro dos factores que afastam o (excelente) futebol português da excelência, deixo um desafio à Cision, empresa que me parece especialmente capacitada para confirmar (ou desmentir) aquilo de que suspeito, totalmente baseado na “ciência do achómetro”.

Seria interessante e quiçá pedagógico, qual reality check, perceber a quantidade de vezes que os dirigentes dos clubes de maior responsabilidade no futebol português (os “três grandes”) se referiram, directa ou indirectamente, aos clubes rivais e arbitragem, em 2015. Estou convencido que uma análise de termos e referências mais frequentes por parte dos dirigentes dos principais emblemas nacionais nos surpreenderá, infelizmente pela negativa, sobretudo se comparada com o volume de referências ao próprio clube, seus protagonistas e, sobretudo, os seus adeptos.

Conclusões? Primeiro gostava de analisar os resultados para perceber a real dimensão do problema, pois a causa está há muito identificada, nos dois temas por mim abordados neste artigo: o futebol que temos, sobretudo o que se joga e fala fora das quatro linhas é da incontornável primeira responsabilidade daqueles que mais se queixam dele. Os seus adeptos.