“Após uma época tão desportivamente competitiva como comportamentalmente indescritível dá-nos confiança uma nova geração que vai vivendo com enorme interesse e paixão o que fazemos.”

Certa vez confrontei um amigo com uma “charada” matemática que me parecia à primeira vista original. Não me recordo como funcionava mas sei que envolvia o número 111, pelo simples facto que esse amigo nunca mais me permitiu esquecer o número: não só desmontou a coisa em segundos como a partir daí passei a ser o tipo que… só sabia contar até 111, até hoje. Castigo justo, pois de facto a coisa era tão básica que apenas uma noite mal dormida ou um café a menos justificava a “branca”.

A minha relação com a matemática sempre foi ambivalente. Ainda sou do tempo em que os números eram vistos como algo útil para o nosso futuro. Proliferavam os professores austeros (hoje já existem matemáticos cool e até aqueles que se aventuram na TV cruzando a matemática com o humor). Pelo caminho tive o azar académico de apanhar dois ou três péssimos professores da disciplina. Curiosamente sempre que me aplicava tirava boas notas, mas convenci-me que não gostava de números.

Mais tarde vim a perceber que o que eu não gostei mesmo foi de alguns professores que apanhei. Já na faculdade a matemática voltou à minha vida, acompanhada da estatística e a coisa correu bem, em linha aliás com o que, para minha surpresa, tinha sido apurado em sede de “psicotécnico”: uma até então surpreendente apetência para os números.

Não deixa assim de ser curioso que o projecto profissional que mais me apaixonou na vida, o GoalPoint, viva todo ele em redor dos números e de como os tornar úteis, interessantes e até divertidos quando aplicados a outra paixão: o futebol. No mínimo… imprevisto.

Alguns leitores gabam-nos a paciência de explicarmos, vezes sem conta, que nos limitamos a oferecer um ponto de vista estatístico sobre o futebol. É mais um, a juntar a outros. Não é melhor nem pior do que alguns, será certamente bem mais objectivo que outros. Mas é, sobretudo,… complementar e original pois quem nos lê fará a justiça de reconhecer que, antes de nós, ninguém o fazia por cá de forma cuidada, sistemática e inovadora como o fazemos.

A paciência faz parte da missão. É certo que por vezes nos surpreende encontrar um leitor que não compreende o que é uma média, ou que esta, desde que sustentada numa base (ex.: minutos jogados) suficientemente representativa, torna um comparativo legítimo. E que esse comparativo não pretende afirmar que um jogador é “melhor” ou “pior” do que outro, termos que nem com cães pisteiros encontrarão nestas páginas.

Artigos como aquele em que anunciamos os 33 jogadores mais produtivos da Liga NOS no plano estatístico são especialmente propensos à frustração, caso não estivéssemos devidamente mentalizados.  As acusações e incompreensões surgem, a clubite vem ao de cima, o flagelo do “111” floresce, mesmo que aplacadas por quem já vai compreendendo e valorizando o que oferecemos.

Por vezes perguntamo-nos se quem critica a abordagem estatística não compreende que seria tão fácil lançar uma escolha consensual e mainstream, a olho, com uns números “inventados”, apenas para corresponder às expectativas de quem espera uma análise de futebol… de taberna. Mas este é um longo caminho, divertido mas difícil. E até confessamos que esperávamos levar muito mais “porrada”.

A adesão que vamos merecendo ainda hoje nos surpreende. Portugal não é um país de números e muito menos de objectividade, sendo o futebol o ex-líbris dessa irracionalidade. Após uma época tão desportivamente competitiva como comportamentalmente indescritível dá-nos confiança uma nova geração que vai vivendo com enorme interesse e paixão o que fazemos. Bem mais novos que eu. Sim, porque a minha geração já só quer saber de penaltis, árbitros, malas e comunicados, salvo raras excepções. O futuro é dos “putos”, de idade ou de cabeça, que parecem não só saber como gostar de contar… bem para lá de 111.

O GoalPoint faz dois anos em Junho. Ainda nem as “fraldas” largou. Logo fique por aí pois novidades não vão faltar nos próximos tempos.