Um Sporting auto-imune?

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Na medicina existe um grupo de doenças chamadas de auto-imunes. Numa explicação tosca de quem é leigo na matéria, estas doenças caracterizam-se pelo ataque do corpo humano a si próprio. Ou seja, em determinadas situações o nosso sistema imunitário ataca o próprio corpo, em vez de apenas incidir sobre os males que nos afectam. Com isto pretendo olhar para o derby entre Sporting e Benfica e concordar, a posteriori (também concordei na altura) com a opinião do GoalPointer Bruno Pires, que anteviu a partida de Alvalade com a sua habitual clarividência – o “tudo ou nada” do Sporting perante um Benfica que entraria mais tranquilo.

E foi exactamente isso que aconteceu. O Sporting entrou (inesperadamente?) nervoso tendo em conta a superioridade registada nos anteriores derbies, o Benfica soube ser maduro, marcou e, com uma dose de felicidade à mistura, foi capaz de mostrar a tranquilidade necessária para segurar até ao fim a vantagem. Mas afinal o que aconteceu ao Sporting e onde entra a história da minha introdução?

Comecemos pelo fim. Penso que o Sporting foi vítima de si mesmo, mais ainda do que do próprio adversário. Os princípios de jogo estavam lá, a superioridade no futebol jogado foi patente (e quantificável), mas as coisas não saíram. E porquê? O Sporting tinha um ponto de vantagem, ganhara 3-0 na Luz, mas tal não era suficiente para tranquilizar a equipa, pois a fasquia foi colocada demasiado alta pelos próprios “leões”. A começar pela estratégia interna. A constante opção pelo conflito externo generalizado, em especial identificando o rival lisboeta como seu Némesis e causa de todos os males, acompanhado por Jorge Jesus na sua cruzada contra Rui Vitória, criou um ambiente interno que contagiou adeptos, estrutura e, em última análise, a própria equipa. A partir de certa altura perder um jogo ou o campeonato para o Benfica passou a ser um cenário inaceitável para todos, sentimento reflectido em última análise na recepção apoteótica ao autocarro da equipa, antes do jogo. E como já se havia visto noutros casos, nomeadamente no rival, nem sempre estas “ondas” surtem o efeito desejado.

De repente passou a ser proibido perder para o rival. Para o Sporting esse cenário transformou-se no pior pesadelo colectivo. E isso reflectiu-se em campo. Como? A começar pelo calendário. O Sporting tem uma sequência de jogos bem mais complicada que o Benfica até final do campeonato, pelo que o simples empate, conjugado com a pressão sobre a equipa, não seria suficiente para assegurar a tranquilidade necessária. Para o Sporting lidar com a pressão benfiquista (e própria) teria de vencer e estabelecer uma “almofada” pontual sólida (de quatro pontos). Era o tal “tudo ou nada” com o qual nem equipa, nem adeptos nem estrutura técnica e directiva souberam lidar. E o resultado está à vista.

Este é um Sporting auto-imune e autofágico que, caso perca a corrida pelo título, deverá esse falhanço a si próprio. Mas ainda há muito campeonato pela frente e se os “leões” derem a volta por cima o triunfo será ainda mais saboroso fazendo esquecer as úteis conclusões de melhoria que se retiram de um “canto” no qual o próprio clube se colocou.

P.S.: Ainda pensei que o FC Porto pudesse intrometer-se nesta aparente luta a dois pela Liga NOS caso vencesse em Braga, mas ao perder da forma como perdeu tenho sérias dúvidas que ainda seja candidato. Mas no futebol nunca se sabe ao certo…

Pedro Tudela
Pedro Tudela
Profissional freelancer com 19 anos de carreira no jornalismo desportivo, colaborou, entre outros media nacionais, com A Bola e o UEFA.com.
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