Vamos ser claros. A selecção nacional A ficou, claramente, a ganhar com a troca de seleccionadores. A começar pelos resultados; Paulo Bento saiu com uma derrota nesta fase de qualificação, após um Mundial confrangedor e Fernando Santos, apelidado outrora de “pé frio”, ganhou sete jogos de enfiada, sempre pela margem mínima e dois dos quais nos descontos.

Com Fernando Santos é justo dizer-se que, para além de uma fase de qualificação descansada, ganhámos margem de recrutamento. Agora todos – ou quase todos – os jogadores contam. Muitos mais do que no consulado do inflexível Paulo Bento, que pouco ou nada mudava para o presente e futuro em nome de um passado. E isso é bom, porque qualquer futebolista tem legitimidade, desde que jogue e esteja num bom momento de forma, a aspirar a integrar os convocados da principal selecção portuguesa de futebol.

Mas nem tudo são rosas. Eu sou adepto da máxima de que jogando bem está-se sempre mais perto de ganhar. Este lema é, amiúde, desmentido, principalmente em futebol. A selecção de Fernando Santos é um bom exemplo disso mesmo e não joga melhor do que com Paulo Bento.

Nesta fase de qualificação Portugal não fez, por uma vez que fosse, uma exibição qualitativamente acima do mínimo razoável. Dá que pensar quando o nosso sentido estético reclama. E quando assim é não podemos pensar que a sorte, a garra ou o querer dos últimos minutos vai continuar a vencer jogos. Porque não vai. E quem pensar o contrário irá ter uma grande desilusão em terras francesas.

Olhando para o futebol exibido por Portugal, percebemos que do meio-campo para a frente há uma quase anarquia em que os jogadores destilam o seu talento, mas sem uma ideia colectiva. Ronaldo é indiscutível e tem de jogar sempre – de acordo –, mas convinha que os colegas percebessem, pelo menos de vez em quando, de antemão, o que o madeirense vai fazer quando tem a bola nos pés – aquilo a que vulgarmente denominamos de “mecanismos”. E não sabem. Não sabendo, estão no mesmo patamar dos adversários.

Na defesa, temos centrais experientes, mas lentos – a pensar e a executar. O espaço entre lateral e central, felizmente, nunca foi devidamente aproveitado pelos opositores nesta fase de qualificação. E ainda bem. Mas em França já não vai ser assim.

O meio-campo terá de ser sólido e, ao mesmo tempo, criar imprevisibilidade. E como compatibilizar estas duas situações, sabendo-se que Ronaldo não defende, deixando desequilibrado o lado esquerdo do ataque português em transição defensiva?

Enfim, não se pode ter tudo. Esta selecção fica na história pelas sete inéditas vitórias consecutivas e a verdade é que os resultados é que contam.

Mas será preciso mais, muito mais na fase final. Esperemos que Fernando Santos, no tempo que tiver para trabalhar antes do início do Europeu, consiga mecanizar processos. Ninguém pode exigir a um seleccionador um trabalho de fundo. Pensar o inverso é uma utopia.

As expectativas estão altas, com a ajuda do discurso do seleccionador, mas para já há muito pouco a sustentá-las.