Vitinha ou Vitão? Os números incríveis da coqueluche do Porto

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Em todas as épocas há um jogador que se afirma de forma mais ou menos surpreendente, em especial nos “três grandes”. À 8ª jornada da Liga portuguesa há um “dragão” a assumir esse papel, embora quem esteja mais atento não se surpreenda assim tanto. Vítor Machado Ferreira, mais conhecido por Vitinha, pegou de estaca neste arranque de temporada, ao ponto de arredar Sérgio Oliveira – pedra fundamental do FC Porto em 2020/21 – para o banco de suplentes. E isso não é dizer pouco.

O derradeiro capítulo desta história aconteceu na vitória portista em casa sobre o Paços de Ferreira, por 2-1, na qual o jovem de 21 anos, formado no emblema da Invicta, exibiu-se a grande nível, com números extraordinários que o ajudaram a ser, à oitava jornada da Liga Bwin, o médio com melhor GoalPoint Rating da prova entre os que somam tempo de utilização igual ou superior a 277 minutos – os mesmos de Vitinha.

Frente aos pacenses, o médio assumiu sem medo todo o jogo da equipa, terminando com um rating de grande nível, um 7.7 sustentado por um recorde e números pouco vistos. Na altura escrevemos: “Que jogo de Vitinha! O médio esteve em todo o lado, a atacar, a defender, a construir. As suas 125 acções com bola são novo recorde nesta Liga Bwin, mas há mais, muito mais. Foi um dos mais rematadores, com quatro disparos, todos de fora da área, criou uma ocasião flagrante em quatro passes para finalização, somou seis passes ofensivos valiosos, terminou com 94% de entregas eficazes, completou cinco de sete tentativas de drible, fez dez recuperações de posse, incríveis oito acções defensivas no meio-campo contrário e assinou quatro intercepções e quatro bloqueios de passe, ambos máximos. Assombroso.”

Discreto em Inglaterra, titular no “dragão”

Antes de olharmos para o que Vitinha tem feito esta época na Liga portuguesa, há que recordar que, após surgir e deixar “água na boca” em 2019/20, o jogador esteve emprestado ao Wolverhampton, então de Nuno Espírito Santo, com cláusula de compra de €20M. Na Premier League foram 19 jogos, com uma assistência e números que, no final, acabaram por não convencer os responsáveis dos “Lobos” a segurarem a pérola lusa. E olhando para o que tem feito esta época, talvez a sensação de arrependimento comece a invadir o clube inglês.

O número de jogos esta temporada no campeonato, apenas quatro, não permite fazer ainda um comparativo rigoroso com o que registou em Inglaterra, mas a diferença de minutos (fez 547 no Wolves para 277 no Porto), em paralelo com os números apresentados, permite já perceber que Vitinha está um patamar acima do que conseguiu em 2020/21, a ponto de ter atirado, em 2021/22, o fundamental Sérgio Oliveira para o banco dos “dragões”. Sérgio até regista um rating maior, mas em menos minutos e já com um golo marcado, porque os outros números sustentam a escolha de Sérgio Conceição.

Enorme capacidade de trabalho

Ainda é cedo para comparar o que Vitinha fez esta temporada com o que Sérgio Oliveira fez na anterior, pois a diferença de minutos é demasiado grande, mas há estatísticas que espantam.

[ À esquerda as acções defensivas de Vitinha na Liga, à direita as recuperações de posse ]

O médio é o jogador da Liga Bwin com mais acções defensivas no meio-campo adversário por 90 minutos (4,2, num total de 13), as quais podem ser observadas no mapa de cima à esquerda. Entre jogadores do Porto é aquele que apresenta a melhor média de acções defensivas no terço intermédio (3,3), e é o quinto na Liga (segundo do Porto) em acções defensivas no último terço (2,0). Um conjunto de dados que mostra claramente tratar-se de um jogador que cobre uma vasta área de terreno nos momentos sem bola, sem virar a cara à luta.

No mapa da direita podemos observar as recuperações de posse. Entre jogadores do Porto é o segundo com melhor média, nada menos que 7,8 por 90 minutos, num total de 24. Conhecendo Sérgio Conceição como conhecemos, estes números não serão alheios à escolha do treinador, com Vitinha a surgir nesta fase como o médio-centro que mais garantias dá ao técnico nos momentos em que o trabalho defensivo é importante. Mas não são os únicos.

Omnipresente com bola

Também com bola, a presença do médio é constante. O seu raio de acção estende-se da linha final até à área do FC Porto, e o “desenho” do passe descreve um jogador com perfil de “patrão”.

[ As acções com bola (à esquerda) e os passes (a azul os completos) de Vitinha esta época na Liga ]

Vitinha assumiu maioritariamente as funções de médio-centro, pelo que, no mapa de acções com bola, se note uma tendência clara para as que se verificam no meio-campo ofensivo, mas o jogador está praticamente em todo o lado, mostrando um “pulmão” interminável e uma disponibilidade física acima da média – apesar de estar longe de ser um jogador de estrutura física imponente. Aliás, frente ao Paços de Ferreira registou 125 acções com bola, novo máximo da Liga, ultrapassando o benfiquista João Mário, que havia fixado 115 ante o Tondela – entretanto, na mesma jornada 8, o bracarense Diogo Leite, emprestado pelos portistas, igualou o número de 125 na recepção ao Boavista.

Com a bola nos pés a distribuição é centrada no fornecimento de jogo para as alas, como é timbre da equipa portista. Vitinha é o jogador do Porto com melhor eficácia de passe para o último terço (incríveis 83%), o segundo em entregas para o terço intermédio (94%, atrás do líder da Liga, Bruno Costa, também do FCP, com 98%), e é o terceiro dos “dragões” em passes para finalização (2,0), atrás de Otávio (2,3) e Taremi (2,1). Defende e constrói com a mesma qualidade e presença.

Enorme capacidade de drible

A sua baixa estatura e velocidade permitem-lhe ser, também, um jogador imprevisível e capaz de galgar linhas em posse, usando o drible com a qualidade de um extremo.

[ Os dribles de Vitinha, azuis os certos (esq.), as conduções aproximativas (tracejados), dribles (estrelas) e faltas sofridas (setas azuis) ]

Habituados a ver Rafa Silva, Jovane Cabral, Jesús Corona ou Marcus Edwards a dominarem o drible? Até pode ser, mas Vitinha é neste momento o segundo jogador do Porto, e décimo na Liga, em tentativas de drible por 90 minutos, nada menos que 5,2, com incríveis 88% de eficácia, o que faz dele o terceiro da Liga em dribles completos, excelentes 4,6, atrás apenas de… Rafa Silva (6,0) e Gil Dias (4,7), ambos do Benfica. E na progressão com a bola nos pés também brilha, sendo o segundo jogador do Porto, atrás de João Mário, e décimo na Liga em conduções, chegando às 3,6.

Ainda é cedo para sabermos se Vitinha vai assumir em definitivo a batuta do meio-campo do Porto, sendo que tem o influente Sérgio Oliveira à espreita, mas nestas primeiras semanas de 2021/22 já mostrou qualidades suficientes para interpretar como poucos as ideias de Sérgio Conceição. Por algum motivo já muitos o compararam a João Moutinho.

Pedro Tudela
Pedro Tudela
Profissional freelancer com 19 anos de carreira no jornalismo desportivo, colaborou, entre outros media nacionais, com A Bola e o UEFA.com.