Os laterais-direitos são como o ketchup. Quando aparecem é logo todos de uma vez. Não foi bem esta a famosa frase de Ronaldo, mas por certo que já alguém em Inglaterra fez esta adaptação ao olhar para as opções que estão à disposição da selecção de Gareth Southgate. Após dois mundiais seguidos nos quais Glen Johnson era praticamente a única opção, os ingleses foram à Rússia este ano com Kyle Walker, Kieran Trippier e Trent Alexander-Arnold. E, como se estes não bastassem, há mais uma opção para a posição a crescer a olhos vistos na Premier League: Aaron Wan-Bissaka.

Um extremo de origem que passou por quase todos os escalões etários da academia do Crystal Palace, aproveitou uma senda de lesões na primeira equipa para se estrear numa recepção ao Tottenham em Selhurst Park, em Fevereiro. O atleta fez mais sete partidas até ao final do campeonato, o suficiente para convencer Roy Hodgson de que seria o “número um” para a sua posição em 2018/19. Jogou todos os minutos em que esteve disponível – estar suspenso deixou-o de fora no único jogo que falhou – e, aos 20 anos, é um dos valores de maior interesse para o clube, tendo renovado contrato em Abril até 2022.

Para alguém que não é um defesa de origem e que está a ser testado num contexto de equipa que defende relativamente recuada antes de partir em contra-ataques – como indicado pelo facto de fazer 93% das suas acções defensiva no primeiro terço –, Wan-Bissaka mostra poucas fragilidades no jogo sem bola. Os seus 4,4 desarmes são o segundo maior total da Premier League – só atrás do já habitual Idrissa Gueye – e, combinados com apenas 0,4 dribles consentidos e só 9% de desarmes falhados, tornam-no num lateral extramamente difícil de ultrapassar no um-para-um.

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Apenas mais uma “vítima” dos muitos desarmes de Wan-Bissaka

Debilidades a corrigir

O número baixo de faltas (0,3) combinado com os cruzamentos que bloqueia (1,0), reforçam a ideia de um lateral que dá poucas opções de sucesso aos extremos adversários. Já o número de alívios dentro da área (2,9) e de bloqueios de remate (0,7), enquanto bastante positivos, estão tendencialmente mais ligados ao sistema de jogo da equipa e suas linhas recuadas – não será de tanto relevo no caso de uma transferência para um grande clube.

Já nos momentos com bola, Aaron Wan-Bissaka mostra algumas das suas maiores valias, mas também as suas debilidades. A sua mistura de velocidade e capacidade técnica fazem dele um lateral com uma capacidade de fantástica para deixar adversários para trás: são 2,1 completos a cada noventa minutos (1,2 no último terço), com 73% eficácia (70% no último terço). Esta sua capacidade de ir para cima de defesas adversários, tanto a partir de trás como em espaços curtos, é tremenda – ainda para mais quando partilha o corredor com um extremo (Townsend) que gosta de atacar as zonas interiores.

Para já soma uma assistência no campeonato e uma sólida eficácia de cruzamento de 25%, mas com um volume relativamente baixo de cruzamentos e passes para finalização, ainda não tira o maior partido das suas incursões pelo flanco direito. No entanto, mais preocupante que isto será mesmo a sua fragilidade no momento de passe, com apenas 76% de eficácia no próprio meio-campo e 24% de passes curtos com os pés falhados. Quando procura o passe longo também mantém esse problema, com apenas 19% de eficácia (e 5% para o último terço). Dados que apontam a uma fragilidade clara no seu jogo, tanto na técnica de passe como na tomada de decisão. O apurar desta fragilidade será o factor decisivo para encontrar o exponente máximo da sua carreira: se chega ao topo ou se deixa ficar-se pelo seu nível actual.

A competição por um lugar na selecção principal é forte, por isso vai, para já, assumindo-se nos (também muito competitivos) Sub-21 ingleses – ao lado de talentos como Phil Foden e Ryan Sessegnon. Na sua carreira de clubes, o Palace demonstra-se para já como o local ideal para o seu crescimento: é o seu clube de formação, tem garantia de minutos na Premier League, confiança do treinador que o lançou e a (relativamente) baixa pressão de quem joga para ficar a meio da tabela. Fica a faltar algum trabalho especifico nos factores acima mencionados.

Tendo isso em conta, se continuar em crescendo vai ser difícil não acabar num clube de outra dimensão – pois, neste momento, é mesmo o lateral-direito com melhor Goalpoint Rating em toda a Premier League. Nem é preciso sair de Londres para se notar que Trippier já tem 28 anos e as características diferenciadoras – drible e velocidade – de Wan-Bissaka muito jeito dariam a Pochettino.

Nota: No sentido de ter uma amostra mais representativa, as estatísticas utilizadas no texto são relativas às últimas duas épocas