Weigl 🆚 Gabriel, o duelo que divide os adeptos

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A contratação de Julian Weigl há cerca de um ano, quando o Benfica liderava o campeonato, parecia ser mais um sinal de afirmação do clube “encarnado” como o “todo-poderoso” do futebol português. Internacional alemão em cinco ocasiões, e durante três temporadas um titular praticamente indiscutível do Borussia Dortmund, o médio-defensivo trazia ao futebol português um currículo raro, sobretudo num jogador que chegava na “flor da idade” (24 anos).

Não espantou por isso que tivesse entrada praticamente automática no “onze” de Bruno Lage. A 10 de Janeiro de 2020, o novo “camisola 28” era saudado na Luz perante o entusiasmo de 51 mil adeptos, e a sua estreia era mesmo a principal atracção de um jogo que se esperava sem grande história, frente ao último classificado, Desportivo das Aves. Mas o esse jogo teve história… Mohammadi bateu Vlachodimos ao minuto 20 e o Benfica foi para o intervalo a perder por 0-1. O novo meio-campo “encarnado”, composto por Weigl e Gabriel, estava longe de carburar e, ao minuto 61, Bruno Lage fez sair Weigl para a entrada de Franco Cervi. A história acabou por terminar bem para as “águias”, com golos de Pizzi e André Almeida a selarem a reviravolta, mas a estreia do novo reforço não correu como esperado.

Desde aí, muita coisa aconteceu. O Benfica acabaria por se ver ultrapassado pelo Porto e Bruno Lage foi, tal como Weigl, substituído à primeira oportunidade. No que se seguiu da temporada anterior, o alemão jogou quase sempre com Gabriel ao lado, mas após a entrada de Jorge Jesus ficou bem claro que só haveria lugar para um deles na sua posição 6, e a partir daí a parceria passou a “duelo”.

À medida que a época 20/21 foi decorrendo, foi-se percebendo que não era só o modelo de Jorge Jesus que só tinha lugar para um deles, o coração de cada adepto também. Hoje, as hostes benfiquistas polarizaram-se entre os preferem o alemão e os que têm o brasileiro nos favoritos. Entre os que criticam Gabriel pelas muitas perdas de bola e os que apontam o dedo a Weigl pelos poucos riscos que toma. Podem ambas as partes ter razão? Comecemos por aí mesmo, a forma como cada um constrói.

Construção

Como a época actual ainda tem poucos jogos, usaremos para a análise as últimas duas temporadas e, desde logo, há algo que une os dois jogadores: o enorme volume de passes que tentam a cada jogo. Entre os 6/8 mais utilizados na Liga NOS neste período, só um jogador intromete-se entre eles no que toca a tentativas de passe. Filipe Augusto – curiosamente uma ex-“águia” – tenta uma média de 70,9 passes a cada 90 minutos, um pouco menos que Gabriel (71,9) e um pouco mais que Weigl (65,6), mas as semelhanças param aí.

Gabriel PiresJulian Weigl
Tentativas de passe71.965.6
Eficácia de passe80%92%
Passes falhados14.45.5
Distância média / passe18.818.1
Progressão vertical / passe4.83.2
Rácio de passes verticais35%25%
Eficácia de passe vertical62%74%
Passes longos para último terço5.91.4
Passes ofensivos valiosos2.51.0
Passes para finalização0.70.1

[ Médias por 90 minutos na Liga NOS 19/20 + 20/21 ]

Salta à vista a enorme quantidade de entregas falhadas por Gabriel. Não, não é um mito. Apesar de a eficácia de 80% estar apenas um pouco abaixo da média da Liga NOS para a posição (81%), o facto de ser o médio do campeonato que mais passes tenta a cada jogo leva a que a sua média de entrega falhadas seja de quase 15 por jogo, quase o dobro do normal num médio em Portugal (7,7 / 90m), e quase o tripo das de Weigl (5,5).

Mas que tipo de passes são esses? Olhando com mais atenção, é fácil verificar que Gabriel arrisca bastante mais. Cada passe certo seu aproxima directamente a equipa da baliza em mais 1,6 metros do que cada passe certo de Weigl. Só um jogador em toda a Liga tem maior progressão vertical por passe (João Pedro do Tondela, com 5,4 metros) do que Gabriel, e o rácio de passes verticais (35%) – que têm menor probabilidade de sucesso – é bem maior que o rácio de Weigl (25%).

Como é fácil de entender, há consequências positivas e negativas em cada uma das abordagens. Weigl dificilmente vai colocar a equipa em risco com perdas de posse. Apenas 9,3% das vezes em que tem a bola o alemão acaba por cedê-la ao adversário, registo em que se superioriza a todos os médios da Liga NOS, mas o outro lado da moeda são os escassíssimos 0,1 passes para finalização que regista a cada 90 minutos, um ranking em que também é líder, mas pela negativa. Vejamos um gráfico com todos os passes de cada um deles que geraram directamente finalizações do Benfica nas últimas duas edições da Liga NOS.

Claro fica o gosto de Gabriel em pisar zonas mais adiantadas no terreno e de tentar criar desequilíbrios através de entregas para o último terço. Ao todo foram 17 as vezes em que últimos passes seus resultaram em remate, contra três de Weigl, todos eles para finalizações de fora da área.

Analisadas as (enormes) diferenças no que ao tipo de entregas diz respeito, é desde logo estranho como uma mesma equipa pode ter dois jogadores tão diferentes para a mesma posição. É preciso uma grande capacidade de adaptação dos jogadores que estão à volta para a “esquizofrenia” que é passar de Weigl num jogo para Gabriel no outro, e vice-versa. Desde logo o tipo de movimentos que se exigem aos extremos e aos avançados, mas também a preparação para a perda da bola que o médio que acompanha Weigl ou Gabriel tem que ter. A escolha entre um estilo e outro será sempre uma questão de gosto, mas podem os processos de uma equipa “gostar” de um e de outro, logo na posição que mais bola tem no modelo “encarnado”?

Desequilíbrio com bola

Se para já nos focámos naquilo que cada um oferece através do passe, convém dizer que não ficam por aí as possibilidades de desequilibrar com bola. O Benfica, por exemplo, tem num dos seus médios um dos maiores desequilibradores no que toca a transportar a equipa para a frente. Adel Taarabt é, de longe, o médio que mais dribla na Liga NOS (2,4 eficazes por jogo) e consegue uma média de 2,5 progressões com bola por jogo, número também bastante acima da média. Neste aspecto, Weigl e Gabriel são bem diferentes do marroquino, mas ainda assim com ligeira prevalência para o brasileiro.

Gabriel PiresJulian Weigl
Tentativas de drible2.31.5
Eficácia de drible71%88%
Progressões com bola1.10.7
Faltas sofridas2.41.4
Remates (lances de bola corrida)0.70.1
Remates (lances de bola parada)0.50.3
Total de remates enquadrados0.40.1
Acções na área adversária1.00.2
Envolvimento directo em golos11%3%
Envolvimento directo em finalizações13%5%

[ Médias por 90 minutos na Liga NOS 19/20 + 20/21 ]

Mais uma vez, Weigl oferece maior fiabilidade, concretizando uma maior percentagem dos dribles que tenta, mas Gabriel acaba por se envolver muito mais em acções de desequilíbrio, o que resulta num muito maior contributo para situações de finalização e golos. Entre todos os médios da Liga NOS desde a época passada, só Idrissa Doumbia (Sporting) contribuiu menos (4%) do que Weigl para as finalizações da equipa (último passe ou remate), sendo que, de bola corrida, Weigl tem mesmo o registo mais fraco (2,8%) entre os 49 médios em análise.

Contributo defensivo

Outro dos problemas apontados a Weigl desde que chegou ao Benfica é alguma falta de agressividade e contributo defensivo, algo que até Jorge Jesus já lhe apontou como ponto a melhorar, mas será verdade? Na realidade, nem por isso. Nos 28 jogos que fez pelos “encarnados” na Liga NOS, o alemão registou uma média de 6,5 acções defensivas, número superior ao da maioria dos médios do campeonato, e está bastante acima da média na capacidade para bloquear passes (1,2 / 90m), nos cortes dentro da área (1,4 / 90m) e na eficácia nos duelos aéreos defensivos (69%). O problema, na comparação com Gabriel, é que o brasileiro tem números ainda superiores.

Gabriel PiresJulian Weigl
Acções defensivas7.86.5
Acções defensivas no meio-campo adversário3.31.7
Tentativas de desarme5.45.3
Eficácia de desarme54%42%
Dribles consentidos1.51.5
Intercepções2.21.2
Bloqueios de passe1.31.2
Recuperações posicionais de posse8.56.8
Duelos aéreos defensivos disputados2.91.5
% Duelos aéreos defensivos ganhos70%69%

[ Médias por 90 minutos na Liga NOS 19/20 + 20/21 ]

No total de acções defensivas, só quatro médios superam o registo do brasileiro (Fábio Pacheco, Mikel Agu, Mohamed Diaby e Anderson Carvalho), mas Gabriel é, a larga distância, aquele que mais vezes o faz no meio-campo adversário. Uribe (2,4) tem o segundo registo mais elevado, mas ainda assim bastante longe das 3,3 do “camisola 8” do Benfica. A capacidade de reacção à perda da bola e o contributo que dá nos momentos de pressão são um dos pontos fortes de Gabriel, e contribuem sobremaneira para um raio de acção difícil de igualar quando mapeamos todas as suas acções defensivas no último ano e meio.

[ O mapa de acções defensivas de Gabriel e Weigl na Liga NOS, desde 19/20 ]

Vale lembrar que no período em análise, Gabriel tem mais 267 minutos (cerca de três jogos) do que Weigl, mas ainda assim é notória uma diferença, sobretudo no corredor central do meio-campo ofensivo, zona muitas vezes decisiva para chegar mais rapidamente à baliza adversária, e de onde saem muitos dos passes para finalização de Gabriel (ver gráfico anterior).

Aqui não estão incluídas as recuperações posicionais de posse, pois são acções defensivas passivas e apenas dependentes de uma boa colocação no terreno nos momentos em que o adversário cede a bola através de alívios ou bolas mal controladas, mas também aí Gabriel tem números de destaque e até tem o melhor registo da Liga portuguesa (8,5 / 90m).

Impacto directo nos resultados

Chegados até aqui, quase se pode atribuir a preferência entre Gabriel e Weigl a uma questão de gosto. A nível táctico e até estético, Julian Weigl será sempre um médio mais agradável de observar. A fiabilidade nas acções de construção, resultantes de uma inteligência e qualidade de passe acima da média, são indiscutíveis, enquanto Gabriel aproxima a equipa de uma maior insegurança em posse e as suas acções negativas acabam por sobressair muito, sobretudo ao olhar dos adeptos menos pacientes, pelos riscos que toma e até pela morfologia algo pesada, que o faz parecer lento e pouco reactivo. No entanto, quem aprecia jogadores que corram riscos, gostará sempre mais do brasileiro, porque quando as coisas lhe saem bem é bastante mais decisivo.

Ainda assim, numa análise que abrange cerca de 30 jogos para cada um dos jogadores, os números podem ajudar-nos a perceber qual aquele que, com a sua presença em campo, mais impacta positivamente nos resultados do Benfica.

Com Gabriel em campoCom Weigl em campo
Golos marcados2.31.6
Golos marcados de bola corrida1.81.3
Golos sofridos0.61.1
Golos sofridos de bola corrida0.40.6
Remates16.514.9
Remates na área11.310.2
Remates permitidos9.210.2
Remates na área permitidos5.06.1

[ Médias por 90 minutos na Liga NOS 19/20 + 20/21 ]

É caso para dizer que talvez o risco compensa. O Benfica marca quase mais um golo por jogo quando tem Gabriel em campo, e sofre cerca de metade do que quando tem Weigl. Se o facto de a equipa rematar mais e, consequentemente, marcar mais, não surpreende por aquilo que se viu acima, os números defensivos dão que pensar.

A equipa parece ficar bastante mais segura quando tem Gabriel em campo, aproximando-se dos registos de golos sofridos que são normais num candidato ao título. Mesmo cingindo o espaço temporal de análise ao último ano, período de maior instabilidade também por outras razões, a média de golos sofridos com Gabriel é de 0,76, ou seja, menos um terço dos golos sofridos com Weigl em campo (1,14).

O jogo com o Aves já tinha deixado o prenúncio, e a tendência nunca mudou verdadeiramente, pelo menos até agora. Gabriel não é necessariamente melhor que Weigl, mas é objectivo dizer que a equipa rende mais com o brasileiro em campo. Resta saber se será Jorge Jesus a conseguir colocar a qualidade do alemão ao serviço do colectivo. Para já, não tem sido esse o caso.

Hernâni Ribeiro
Hernâni Ribeiro
Formado em estatística e gestão de informação, e Data Scientist profissional. É Head of Analytics na GoalPoint e responsável pela GoalPointPro
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