William, o “monstro”

(foto: J. Trindade)
(foto: J. Trindade)

Muito se tem debatido a actual forma do jogador William Carvalho, um jogador de apenas 22 anos, que após uma temporada 2013/1014 extraordinária aparenta estar uns “furos” abaixo do que seria de esperar.

William fez exibições de “outro mundo” sob o comando de Leonardo Jardim, comportando-se como um verdadeiro “panzer” no centro do terreno onde, com toda a sua calma, impunha os seus 1,87m de altura na recuperação de bola e saía a jogar de forma limpa e segura.

Agora debaixo da batuta de Marco Silva, William demonstra ser um jogador menos exuberante, por vezes ausente, longe do fulgor demonstrado na temporada transacta.

Ora terá este aparente “desaparecimento” de William confirmação objectiva? E caso se verifique terá uma explicação plausível? Sobre o primeiro tema recomendo a análise publicada pelo GoalPoint esta semana, que permite chegar a algumas conclusões: apesar da “quebra” de William não ser tão evidente como poderia parecer as diferenças existem e são quantificáveis. Já no campo das razões para tais variações identifico pelo menos duas, a primeira de ordem táctica colectiva e a segunda de ordem mental e individual.

No que concerne à vertente táctica e colectiva é importante compreender que, sob o comando de Jardim, William jogava num quadrado imaginário de 20x20m , no qual comandava e dominava a zona recuada do meio campo leonino. Já com Marco Silva William enquadra-se numa alteração na dinâmica da equipa, com impacto profundo naquilo que lhe é exigido e, consequentemente, no seu rendimento.

Hoje podemos constatar  a presença de Adrien quase como um duplo pivot, com William em diversos momentos do jogo, com o médio-defensivo a executar um pressing mais agressivo e adiantado no terreno do que aquele que lhe era solicitado em 2013/14. Consequentemente William vê-se confrontado com a necessidade de maior mobilidade e velocidade na transição defensiva, com as quais não se sentirá tão confortável.

A nível da construção baixa há no Sporting de hoje uma maior atenção dos adversários sobre o “trinco” leonino, que se vê confrontado com marcações individuais mais frequentes, com Marco Silva a contrariar esta tendência com a chamada de Adrien a terrenos mais recuados ou com a deslocação de William para o espaço entre centrais ou entre o central e o lateral.

Mas as novas exigências motivam novos desafios e uma natural maior propensão para o erro, à medida que o jovem jogador sai da zona de conforto criada por Leonardo Jardim ao longo da última época. A coordenação entre William e Adrien nem sempre é a melhor, com ambos os jogadores a pagarem o preço dessa oportunidade de melhoria nas suas exibições e rendimento. Nada que, no entanto, não seja passível de aperfeiçoamento através do treino e do jogo.

Mas para lá das questões tácticas e colectivas sobra também a vertente individual e mental. A época transacta foi particularmente fértil no que respeita a motivar “sonhos” num jovem jogador que está longe de auferir um vencimento compatível com a dimensão que entretanto atingiu e que naturalmente ambicionará seguir as pisadas de outras figuras que iniciaram em Alvalade o caminho seguro do sucesso e dos títulos. Ignorar o impacto da provável frustração do jogador no seu desempenho é fechar os olhos à realidade do futebol, sem que tal constitua qualquer sinal de falta de empenho do jogador ao serviço dos “leões”, eventual suspeita (de adepto) que não é corroborada por qualquer dado quantitativo ou qualitativo observável.

Não tenho qualquer dúvida que William irá retomar o rumo promissor iniciado na época 2013/14, dando de novo o gosto aos adeptos e fãs de  o vermos “roubar” a bola a um adversário, ser imediatamente “cercado” por um ou dois adversários e saindo dessa situação com a calma que se viu em jogadores que fizeram escola como um Patrick Vieira ou um Marcel Desailly. O Sporting e a Selecção precisam do “monstro” William. É uma questão de tempo até ele reaparecer.