Entrevista: Vítor Severino, um sonho de Futebol que vai de Coimbra a Porto Alegre

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(Entrevista efectuada por Zach Lowry, para a GoalPoint, em Março de 2026)

Nascido em 16 de agosto de 1983, Vítor Severino cresceu em Ferrel antes de ingressar na Universidade de Coimbra, onde se formou e, posteriormente, treinou alunos do ensino médio e jogadores das categorias de base da Académica de Coimbra. Quando a falta de sucesso financeiro o fez considerar uma nova trajectória, os seus pais intervieram e permitiram que ele permanecesse no clube. Após uma década no Porto, a sua paciência finalmente foi recompensada quando Luís Castro o convidou para integrar sua equipe no FC Porto, iniciando uma relação que perdura até hoje.

Severino atuou como auxiliar técnico das equipes sub-15 e sub-17, trabalhando com futuras estrelas como André Silva, Gonçalo Paciência, Rubén Neves, Diogo Costa e Diogo Dalot, antes de seguir Castro para o Rio Ave. Depois de levar a equipa à sua melhor média de pontos na primeira divisão (1,58), a dupla obteve sucesso com Chaves e Vitória antes de se transferir para o maior clube da Ucrânia: Shakhtar Donetsk. Foi no Shakhtar que Severino teve a oportunidade de disputar a Liga dos Campeões pela primeira vez, além de conquistar o título do Campeonato Ucraniano, antes de se transferir para o clube catari Al-Duhail, onde venceu a Copa do Emir do Catar.

Em seguida, foram para o Rio de Janeiro, onde lançaram as bases para o retorno do Botafogo ao domínio, antes de se juntarem a Cristiano Ronaldo e companhia no clube saudita Al-Nassr. Depois, transferiram-se para o Al Wasl, dos Emirados Árabes Unidos, onde permaneceram apenas quatro meses antes de serem dispensados. Mas encontraram o caminho certo ao assumirem o comando do poderoso Grêmio, do Brasil. Zach Lowry conversou com Severino, para a GoalPoint, sobre diversos assuntos, numa entrevista exclusiva, que passamos a apresentar.

Como foi a tua infância? Qual a importância de teres saído da sua cidade natal e rumado a Coimbra?

Vítor Severino: Sou de uma terra que se chama Ferrel, que é uma terra bem pequena junto ao mar, perto de Lisboa. Mas quando eu tive os meus dezoito anos, saí precisamente atrás daquele sonho de ser treinador, eu achava que era via Académica. Fui cedo para estudar para Coimbra e nunca mais voltei a casa. Eu fui tirar o curso de Ciências do desporto e estava motivado por essa questão de começarem a aparecer treinadores que não tinham sido jogadores. Mesmo quando eu terminei o curso, eu fiquei a trabalhar logo em Coimbra e depois no Futebol Clube do Porto, mas depois eu voltava esporadicamente a casa.

Quando foi o momento em que percebeste que ser treinador podia  mais do que um passatempo para ti, uma carreira?

VS: Enquanto eu estava na Académica, mantive uma forte ligação com a Universidade. Quando acabei o curso acabei por ficar e fazer um mestrado, continuar os meus estudos. Na altura pensei “Já que estou em Coimbra, vou continuar a estudar” e depois fui convidado a dar algumas aulas na universidade. Eu dividia a minha carreira entre a Académica e dar aulas na faculdade de metodologia do treino, estava já a viver o sonho e muito feliz porque gostava de ensinar e, ao mesmo tempo, trabalhava na Académica. Eu queria mais, mas eu era muito importante ter os pés no chão, não ia deixar tudo o que eu construí para ir atrás de alguma coisa que eu não considerasse sólida. Mas passados esses cerca de nove, dez anos, surge um convite para ir para o Futebol Clube do Porto. E foi daqueles convites que eu, quando ouvi o convite, já sabia que resposta ia dar, apesar de dizer “vou pensar”. Eu já sabia que era aquilo que queria. Na altura senti, ‘olha, chegou a oportunidade que eu lutei a minha vida toda, trabalhar num grande clube.’ Fui então para o Futebol Clube do Porto e aí percebi que me ia dedicar ao Futebol, tive de deixar o lado académico. Enfim, não vou dizer que fiquei triste, pois o que eu queria era mesmo pensar treino e futebol 24 horas por dia e aquela era a minha grande oportunidade, na equipa B do Porto.

Tens algum caso de um jogador que te deixe particularmente orgulhoso, por teres contribuído para o alcançar do seu potencial?

VS: Vou correr o risco de falhar alguns, mas lembro-me de vários. Por exemplo, quando eu estava no Rio Ave, o Filip Krovinović foi um jogador que penso ajudámos a potenciar. Ele foi contratado pelo Benfica no ano seguinte e hoje em dia está aqui connosco, no Grêmio. O Matheus Pereira, quando estava no Chaves e que hoje é figura no Cruzeiro. Foi um jogador que andava ali, meio perdido, emprestado. Fez um ano muito bom connosco e ficou uma amizade. E claro, o Stephen Eustáquio, que contratámos no Chaves vindo do Leixões e foi figura no Mundial 2026 pelo Canadá, tudo isso após enfrentar uma lesão gravíssima. Posso dizer muito mais, mas estes são três que me vieram à memória automaticamente. O Tetê, que é uma coincidência, foi nosso jogador no Shakhtar e agora foi contratado e apresentado aqui no Grémio porque ele era da formação do Grémio, o próprio Dodô, todos esses jogadores, alguns, como estou aqui a esquecer, tenho mesmo muito orgulho por vê-los, por ter ajudado, por ter feito parte do percurso deles quando jogador.

Ultimamente, quais são os objetivos para Grêmio? O que haja deve constituir uma temporada de sucesso?

VS: O Grêmio é um clube gigante e, por si só, tem de jogar para conquistar. Mas insere-se num campeonato exigente. No Brasil, existem muitos clubes grandes e muitos clubes bem estruturados, com muita capacidade de investimento e, também por isso, o Grêmio teve um percurso que oscilou um pouco, nos últimos anos. Já esteve na Série B. Voltou depois, fez um segundo lugar e quase que era campeão. No Brasil existem duas ou três equipas que têm sido mais regulares, Palmeiras e Flamengo, mas se olhares bem, todas as outras oscilam. O próprio Botafogo ganhou tudo o que tinha para ganhar, depois já ficou abaixo da tabela.. Uma boa época para o Grêmio é lutar por títulos, chegar longe na Copa do Brasil, andar a lutar durante o campeonato para conseguir andar no G6 no grupo dos primeiros seis. Num cenário ideal, seria obviamente lutar pelo título, mas sabemos que é muito difícil, e lutar também pela Sudamericana. E são provas a eliminar.

Portanto, jogamos sempre para ganhar e um ano bom seria um ano com conquistas. É um campeonato muito exigente, com viagens difíceis e campos complicados. Enfim, mas o objectivo, obviamente, ganhar, conquistar e crescer. Nós temos dois anos de contrato. Espero que este ano seja um ano de estabilização, de lutar por títulos, principalmente conquistar algum e que, no próximo, possamos já ter essa base e definitivamente ganhar aquilo que eventualmente não conseguimos ganhar este ano. Mas é um clube enorme e a pressão para ganhar e conquistar está presente no dia a dia. Isso é notório. Sabemos que jogamos contra adversários muito fortes. Existem muitos jogos difíceis do Brasil. A Série A aqui é por isso que vai ser um desafio grande, mas temos jogadores habituados a ganhar grandes campeões como o Arthur, que já ganhou aqui, o Walter Kanemann, o Willian, o Carlos Vinícius, o Têtê o Martin Braithwaite, muita gente que já conquistou títulos. E é mais fácil assim, quando existe essa mentalidade vencedora, jogadores com experiência internacional e contratámos um guarda-redes muito experiente que estava no Palmeiras, o Weverton. E aquilo que nós queremos, obviamente, é jogar sempre para ganhar, sabendo que talvez não vamos ganhar sempre. Mas é essa a mentalidade que queremos.

A rica carreira de Vitor Severino, de apenas 43 anos (fonte: Transfermarkt)

Zach Lowy
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Zach Lowy co-founded Breaking The Lines with Thomas Anderson in 2016. He is a freelance football writer who runs the weekly English language podcast dedicated to Portuguese football - Cortalinhas - on Breaking The Lines.