Os analytics dos adversários do Porto na Champions 23/24 🐉

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Seis jogos oficiais, quatro triunfos, um empate, um desaire, na Supertaça Cândido de Oliveira diante do Benfica, oito golos marcados e seis sofridos. É este o pecúlio do FC Porto neste início de 2023/24. A equipa portista ainda está à procura da melhor versão, sendo que em várias destas partidas a nota artística não foi das mais entusiasmantes.

“Temos entrado mal nos jogos e jogámos ainda pouquinho, na minha opinião. Somos capazes de mais e melhor do que temos feito até agora. Uma das coisas que trabalhámos foi a organização defensiva. A base para se ganhar é não sofrer golos, é que garante pelo menos um ponto”, admitiu o Sérgio Conceição na antevisão ao encontro frente ao Estrela da Amadora.

Nestes seis confrontos com Barcelona, Shakhtar Donetsk e Antwerp no Grupo H desta edição da Liga dos Campeões, o FC Porto tem boas hipóteses de conseguir atingir os oitavos-de-final, mas para isso terá de ser mais consistente, estabilizar o nível de jogo e que o treinador resolva algumas questões. A aposta no 1x3x5x2 foi apenas episódica ou será um plano que iremos ver mais vezes? Quem fará de Marcano – oportunidade de ouro para David Carmo? Wendell e Zaidu terão de ser mais fiáveis. Como será feita a gestão das muitas opções existentes, principalmente do meio-campo para o ataque? Muitas questões que o conjunto “azul-e-branco” vai começar a responder já a partir desta terça-feira em Hamburgo, casa emprestada do campeão ucraniano.

Vamos olhar um pouco para os adversários dos portistas e tentar perceber o que aí vem. 

Shakhtar, o “outsider”

[ O brilharete do Shakhtar na época passada em Leipzig ]

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Campeão ucraniano pela 14.ª vez, o Shakhtar Donetsk será uma espécie de “outsider” neste agrupamento H da prova milionária. Ainda sem derrotas, fruto de cinco triunfos e dois empates, os comandados de Patrick van Leeuwen não vai ser um opositor fácil, o plantel tem diversos valores com imensa qualidade e as marcas de um conflito armado que dura há mais de um ano e meio poderá ser uma espécie de bálsamo para os “hirnyky”. O plantel tem vindo a perder qualidade – no Verão, entre jogadores indiscutíveis casos de Trubin (contratado pelo SL Benfica) ou de Neven Djurasek (Aris) ou de outros valores menos badalados, viu saírem 17 nomes –, resquícios de uma guerra que, infelizmente, parece não ter fim.

[ Remates/xG (à esquerda), dribles, conduções progressivas e faltas sofridas, remates permitidos (à direita) pelo Shakhar na UCL 22/23 ]

Na última edição da Champions, o Shakhtar ficou-se pela fase de grupos, e não espanta, pois foi a segunda equipa que menos remates (mapa de cima à esquerda) registou na prova por 90 minutos, apenas 7,5. Ao mesmo tempo foi a terceira que mais disparos permitiu, 18,2 (mapa de cima à direita). Fragilidades que o Porto pode e deve aproveitar.

A aposta na Academia tem, também por si, sido cada vez mais acentuada. Patrick van Leeuwen, que tinha sido coordenador e director da academia do campeão ucraniano entre 2006 e 2013, atesta esta visão do clube e, no 1x4x3x3 – que também se desdobra num 1x4x4x1 -, a configuração táctica mais utilizada, vão emergindo nomes como os do criativo médio Georgiy Sudakov, do versátil Dmytro Kryskiv, do veloz ala Zubkov, do óptimo Bondarenko ou do promissor avançado brasileiro Eguinaldo (formado nas escolas do Vasco da Gama e que custou cerca de 3,6 milhões de euros).

[ Os statscards do médio Sudakov e do avançado Zubkov na última Champions ]

“Temos de procurar a sorte. Barcelona e FC Porto são, provavelmente, os dois favoritos do grupo. Por isso, os nossos jogadores vão precisar de imensa força e de concentração para se prepararem”, frisou o técnico, em declarações ao “site” do clube. Já o capitão Taras Stepanenko jogou ao ataque nos comentários que proferiu.

“Vi os últimos jogos do FC Porto e sei que na época passada tiveram um excelente desempenho na Liga dos Campeões. O FC Porto é muito forte, como é evidente, joga com alto ritmo e tem jogadores de muita experiência, como o Pepe, que tem 40 anos, é impressionante. Com certeza que temos muito respeito pelo FC Porto. Mas também temos as nossas armas”, disse o médio ucraniano de 34 anos e representa o emblema de Donetsk há 11 temporadas.

Barcelona, o papão dos dois “Joões”

[ O retrato da goleada do Barça ao Bétis na La Liga ]

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A reconstrução na Catalunha continua. Após ter vencido a Liga EA Sports e a Supertaça, o Barcelona quer dar mais um passo sustentado na época que agora começa e tendo em vista a desilusão nas duas últimas temporadas em que não logrou atingir os “oitavos”, o primeiro objectivo será esse. Em termos tácticos, Xavi mantém a aposta no 1x4x3x3, mas tem testado algumas nuances, com o incremento de três defesas na linha mais recuada, num 1x4x4x2 assimétrico ou ainda num 1x4x2x3x1 –, de forma a conjugar İlkay Gündoğan, De Jong, Pedri (a recuperar de lesão) e Gavi (mais descaído sobre uma das faixas).

[ Remates/xG (à esquerda), dribles, conduções progressivas e faltas sofridas, flagrantes criadas (à direita) pelo Barça na La Liga 23/24 ]

O poder “blaugrana” no ataque é visível a todos os níveis. O Barça é, nesta fase precoce da La Liga, a segunda equipa mais rematadora (17,2 por 90m, no mapa acima à esquerda), apenas atrás do Real Madrid, e é destacada a equipa com mais ocasiões flagrantes criadas (3,0, no mapa em cima à direita). O mapa do meio mostra uma equipa com uma variedade impressionante de recursos, usando praticamente todas as zonas do terreno para criar e construir lances de ataque, com ligeira predisposição pelas conduções pelo lado esquerdo.

Com os empréstimos de João Cancelo e João Félix, o plantel “blaugrana” passou a ter mais profundidade. Cancelo será um “upgrade” às adaptações que tem sido lançadas no flanco e tem tudo para agarrar um lugar – também pode ser opção no lado canhoto e até actuar em zonas mais interiores.

[ Os extraordinários statscards de Lewandowski, Cancelo e Félix ante o Bétis ]

Félix será uma espécie de “joker”, ora actuando desde o lado esquerdo, ora nas costas de Lewandowski, ou ainda a desempenhar as funções de falso “9”. A base à disposição de Xavi tem qualidade, Álex Baldé deve continuar a crescer no flanco esquerdo, Marcos Alonso é um “bom suplente”, Andreas Christensen, Jules Koundé, Araújo e Iñigo Martínez são os centrais, mas o sector mais forte é o meio-campo.

É certo que Oriol Romeu não tem a qualidade de Busquets, mas não compromete, conhece bem os cantos à casa e será um bom “protector” para soltar os talentosos De Jong, Pedri, Gavi, Gündoğan e Fermín López. No ataque, o goleador Lewandowski não tem um substituto à altura, e é importante que Ferrán Torres, Félix, Raphinha e o prodígio “teenager” Lamine Yamal mantenham um nível constante no decurso dos próximos meses.

Antwerp, a grande incógnita

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Sessenta e seis anos depois, o Antuérpia voltou a sagrar-se campeão belga, num final apoteótico da Jupiler Pro League, o campeonato local. Com fortes ligações aos Países Baixos, os “reds” voltaram aos êxitos muito graças ao trabalho de laboratório que foi levado a cabo pelo diretor-desportivo Marc Overmars e pelo treinador Marc van Bommel, sendo que no plantel ainda pontificam os neerlandeses Owen Wijndal, Jurgen Ekkelenkamp, Gyrano Kerk e Vincent Janssen.

O desenho tácticto do Antuérpia é um 1x4x2x3x1, que tem no veterano e herói Toby Alderweireld – foi ele o autor do pontapé canhão que garantiu o título – uma garantia de segurança, em Soumaïla Coulibaly, de apenas 19 anos, um bom projecto de central. Mais à frente, o meio-campo é o sector mais forte. Arthur Vermeeren, e os seus tenros 18 anos, é um “box-to-box” do melhor que há no futebol europeu, rotativo, tecnicamente e tacticamente muito evoluído e com um tecto para evoluir altíssimo. O também belga Mandela Keita é um bom complemento, forte fisicamente e com uma técnica apreciável, e Ekkelenkamp está a justificar, aos 24 anos, o “hype” que o tornou numa das “next big thing” criadas na academia do Ajax.

Na linha atacante, Janssen é o goleador de serviço, Michel Balikwisha, Arbnor Muja, Kerk, Jacob Ondrejka e Anthony Valencia são peças que imprimem explosão e velocidade a partir das alas.

Mark van Bommel, treinador do Antuérpia, analisou, ao site do clube, os adversários que calharam em sorte. “O Shakhtar Donetsk e o FC Porto são subestimados, mas têm equipas muito boas. Vão ver. Estou de volta a Barcelona. Ganhei a Liga dos Campeões pelo Barça. Será um encontro lindo”, salientou o treinador neerlandês que liderou a conquista da “dobradinha” na época passada dos belgas, conjunto que vai participar pela primeira vez no novo formato da da Liga dos Campeões – tinha estado presente anteriormente ainda a competição tinha a designação de Taça dos Campeões Europeus.

O Porto tem, assim, um grupo que, tirando o Barcelona, poderá ser doce para os objectivos de chegar aos oitavos-de-final. É necessário o “dragão” redefinir-se e reencontrar-se para levar a cabo tal missão, numa época que começou com vitórias, mas pouco brilho.

Leonel Gomes
Leonel Gomes
Amante das letras, já escreveu nos jornais A Bola, Público e o O Jogo, dedicando-se também ao Social Media Management desde 2014. Tornou-se GoalPointer na "janela de mercado" do verão de 2019.