Os analytics dos adversários do Braga na Champions 23/24 🛡️

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Artigo publicado originalmente a 20 de Setembro

Dez épocas depois, o Braga carimbou, pela terceira vez no seu historial, uma vaga na fase de grupos da Liga dos Campeões, após ter eliminado o Backa Topola e o Panathinakos na qualificação. No regresso à elite do futebol europeu, os “arsenalistas” vão defrontar, no Grupo C, o Napoli, Real Madrid e Union Berlin, um sorteio que não foi nada meio para a equipa portuguesa que terá de agigantar-se e fazer um percurso quase imaculado caso queira chegar aos oitavos-de-final ou, em última instância, continuar a competir nas provas com a chancela da UEFA.

Para fazer o que já tinha sido feito em 2010/11 e 2012/13, António Salvador não mediu esforços, abriu os cordões à bola (cerca de €17,8M) e apetrechou um plantel que já tinha qualidade. Bruma foi contratado em definitivo ao Fenerbahçe, Zalazar chegou proveniente do Schalke 04, Vítor Carvalho foi resgatado ao Gil Vicente, o mesmo destino teve Adrián Marín, Niakaté foi contratado ao Guingamp e o mesmo ocorreu com Víctor Gómez. Os internacionais José Fonte, Rony Lopes e João Moutinho chegaram a custo zero para acrescentar valor e experiência. Se ofensivamente a máquina parece bem oleada, defensivamente a conversa é outra, saltando, ainda, à vista que é preciso afinar algumas dinâmicas, principalmente o espaço concedido entre os dois laterais e os centrais e a bola nas costas da dupla de defensores. Contra Napoli, Union Berlin e Real Madrid, quais são as reais hipóteses dos arsenalistas?

“Acho que o SC Braga foi uma das equipas que se reforçou muito bem no mercado e encontrou espaço para poder entrar nesta Liga dos Campeões a olhar para uma eventualidade de ser apurado, mas o sorteio foi o mais difícil possível em termos de grupo. Será um desafio constante, mas ao mesmo tempo uma oportunidade, pois cada ponto conquistado neste grupo pode ser um ponto com um grande valor em termos simbólicos para o conjunto minhoto. Acredito que será muito nesse caminho que os portugueses vão fazer esta competição”, defendeu o analista Luís Cristóvão em declarações ao nosso “site”.

Bellingham, o novo “star boy” do Real Madrid

[ O Real Madrid, adversário do Braga, bateu a Real Sociedad, adversário do Benfica, na J5 da La Liga 23/24

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O rei da Liga dos Campeões, com 14 títulos no museu, parte para esta edição com aspirações renovadas, após ter caído, em 2022/23, nas meias-finais aos pés do Manchester City, actual detentor do troféu. Sem Benzema, que assumira os galões que Cristiano Ronaldo deixou aquando da saída para a Juventus, este Real ainda está em formação, o plantel rejuvenesceu, tem profundidade em várias zonas, mas também lacunas que são evidentes.

Não chegou nenhum jogador para o ataque com o “status” que tinha Benzema – Joselu tem valor, mas não é a mesma coisa -, Courtois – talvez o melhor guarda-redes da actualidade – está a contas com uma rotura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo e apenas deverá ser opção em 2024, Militão não deverá actuar mais esta época – rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo -, Vini Jr. e Arda Güler também estão “out”, mas ambos têm um prognóstico mais animador e deverão estar de regresso aos relvados no decurso das próximas semanas. Na ausência de um goleador, outros elementos têm assumido um maior protagonismo no que à arte de fazer golos diz respeito, Vinícius até se ter lesionado, Rodrygo e principalmente Jude Bellingham.

[ Esta é, provavelmente, a espinha dorsal do Real Madrid versão 23/24 ]

O “star boy” inglês está com “o diabo no corpo” e tem sido o abono dos “blancos” até ao momento, qual ponta-de-lança. O prodígio britânico já tem cinco golos e uma assistência nas primeiras cinco jornadas da La Liga. Aproveitando a proliferação de opções de enorme qualidade na zona central, Ancelotti decidiu alterar o esquema táctico, deixou para trás o maleável 1x4x3x3 e tem apostado num 1x4x4x2, com um meio-campo em diamante, deixando Vini Jr. (até à lesão) e Rodrygo como as duas lanças ofensivas, Bellingham é o “playmaker” com total liberdade para pisar a área adversária e, nas suas costas, não faltam soluções em quantidade e qualidade, de Aurélien Tchouaméni a Toni Kross, passando por Modric, Valverde, Camavinga, havendo ainda Dani Ceballos (lesionado) e o jovem talentoso Nico Paz (fixem o nome).

A manta é mais curta em opções no ataque. Além dos já citados Vini Jr., Rodrygo e Joselu, Carleto tem ainda como escolhas Brahim Díaz e os “canteranos” Gonzalo García e Álvaro Rodríguez. Recuando no terreno, a lesão de Militão deixou a defesa mais exposta e com menos um elemento polivalente, restando Dani Carvajal e Lucas Vázquez (opções para o lado direito), Fran García e Ferland Mendy (quase sempre lesionado) são os laterais-esquerdos, Alaba, Antonio Rüdiger, Nacho e Marvel (outro membro da formação) e, na baliza, Kepa chegou por empréstimo do Chelsea com a missão de fazer esquecer o seguríssimo Courtois. Não obstante estas limitações, as expectativas em Madrid são, como quase sempre, elevadas.

Mesmo com tantas mexidas, o Real consegue ser, até ao arranque da Champions, a equipa mais rematadora da La Liga (18,4 por 90m, 15,2 de bola corrida, igualmente valor mais elevado), a que mais passes para finalização consegue (14,4), sendo, no entanto, uma formação pouco dada à pressão, o que pode beneficiar os bracarenses. Os “merengues” registam apenas 10,2 acções defensivas no meio-campo contrário, sétimo valor mais alto, uma estatística que não espanta, uma vez que Carlo Ancelotti tem, naturalmente, escola italiana – dados comprováveis nos mapas acima.

[ Remates/xG (esq.), passes para finalização e acções defensivas do Real na La Liga 23/24 à 5J ]

“Bellingham marca o início de uma nova”

“O Real Madrid tem as lesões de Courtois e de Eder Militão a pesar neste arranque de temporada. Bellingham é o elemento que marca o início de uma nova era na equipa ‘merengue’ pela disponibilidade, capacidade que tem em transformar a forma como joga a equipa, tem uma capacidade de progressão fantástica, é um médio que traz um carácter que creio que não tinham nos últimos anos, a capacidade de liderança, chegou e colou desde logo na Liga espanhola. É um jogador que teve um impacto inicial fortíssimo e creio que irá conseguir mantê-lo nestes próximos anos, até ser uma grande figura do clube. Para já, é o grande destaque deste conjunto”, salienta Luís Cristóvão.

Diogo Leite defende muro do Union Berlin

[ O Union Berlin goleou por 4-1 nas 2 primeiras jornadas da Bundesliga 23/24 ]

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O Union vai trilhando o seu caminho com um trajecto ascendente e sustentado, bem vincando na forma agressiva e positiva com que joga. Diogo Leite vai regressar à Pedreira com o moral revigorado, ele que é umas peças do 1x3x4x3 habitualmente escolhido por Urs Fischer. Com o incremento dos milhões da Champions, o clube realizou um investimento considerável, apetrechando o plantel com os ingressos, entre outros, de Bonucci, Gosens, Tousart, Aaronson ou Volland, por exemplo.

[ O português Diogo Leite e o alemão Robin Gosens são duas das principais figuras do Union Berlin ]

O futebol “rock & roll” dos germânicos poderá causar estragos se estiver bem oleado, já que o Union procura, muitas vezes, “partir” o jogo com o objectivo de evidenciar as principais características da equipa, a profundidade, largura e ataques rápidos e eficazes à baliza contrária. Em contrapartida, este tipo de futebol acaba por expor muito a linha mais recuada, havendo notórias dificuldades em baixar o ritmo do jogo, controlando-o com a bola de forma mais harmoniosa.

[ A forma de jogar do Union: conduções progressivas/dribles/faltas sofridas (esq.) e acções defensivas na Bundesliga 23/24 ]

“O Union tem vindo a reforçar-se dentro da ideia de jogo de Urs Fischer com elementos que vão trazendo mais qualidade, fiabilidade àquilo que é a proposta de jogo. A chegada de Kevin Volland poderá ajudar a transformar a equipa no espaço mais adiantado, o empréstimo do Aaronson é também um acrescento de criatividade muito interessante para este conjunto, o mesmo sucede com Fofana. Diria que há uma passagem de nível desta equipa alemã para algo mais elevado, o que torna a vida do Braga bastante difícil”, afirma Luís Cristóvão à GoalPoint.

Napoli com imensa qualidade, mas algumas lacunas

[ O último jogo do Napoli na Serie A antes da ida a Braga não correu muito bem ]

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Saiu Luciano Spalletti, entrou Rudi Garcia. Além da mudança de treinador, realce para a saída do antigo director-desportivo e um dos cérebros do projecto do clube Cristiano Giuntoli para a rival Juventus. A base do plantel que se sagrou campeão italiano 33 anos depois manteve-se, com a excepção do defesa-central Min-jae Kim – uma das revelações do futebol europeu na época transcorrida – e de Lozano – nem sempre titular, mas que foi utilizado em 41 jogos, tendo marcado quatro golos e realizado outras tantas assistências. Em sentido inverso, destaque para as chegadas, entre outros, do entusiasmante Jesper Lindstrom e do promissor Jens Cajuste. O plantel é equilibrado, Rudi Garcia tem diversas soluções para quase todas as posições, mas este arranque em 2023/24 tem deixado dúvidas em relação à consistência do 1x4x3x3 no processo defensivo – transição e organização -, ficando no ar se a saída de Kim foi ou não devidamente acautelada – Natan (ex-Red Bull Bragantino) tem qualidade, mas ainda está a adaptar-se ao ritmo do futebol do “velho continente”.

No ataque as coisas continuam a correr bem. O Napoli era, à quarta jornada da Serie A, a equipa mais rematadora da prova (19,5 por 90m, 15 de bola corrida, também valor mais alto), a que mais passes para finalização (16 por 90m) realiza e é uma formação que gosta de pressionar bem alto no terreno, com 13,5 acções defensivas no meio-campo contrário – dados que podem ser vistos nos mapas abaixo. O Braga deve esperar forte pressão e um assalto à sua baliza.

[ Remates/xG (à esquerda), passes para finalização e acções defensivas do Napoli na Serie A 23/24 até à 4J ]

O português Mário Rui continua a ser a “sombra” de Mathías Olivera na lateral-esquerda, Zanoli, após um longo namoro com o Sporting, acabou por ficar, no miolo Piotr Zielinski resistiu aos milhões sauditas e é uma das faces de uma zona que tem diversas unidades com qualidade, casos de Anguissa – muito “underrated” -, Lobotka é super fiável e Elmas é um “suplente” de muitas garantias. No ataque, moram as principais estrelas dos campeões transalpinos: Oshimen não foi vendido e é o grande “reforço” para esta temporada, Khvicha Kvaratskhelia tentará confirmar toda a magia que apresentou até meados de Fevereiro, Politano, Giovanni Simeone e Raspadori são nomes a ter muito em conta.

[ O extremo Politano, o médio Zieliński e o ponta-de-lança Osimhen são três das principais figuras do Napoli ]

Khvicha Kvaratskhelia [que tem tido uma menor utilização no arranque da época] é a figura que desequilibra nesta equipa do Napoli, Oshimen é também fortíssimo na forma como aparece em espaços de finalização, mas depois também destacaria na zona do meio-campo Lobotka e Cajuste, um jogador que chega a este nível e que se enquadra muito bem na equipa, não é um titular, mas poderá ser alguém a afirmar-se. Di Lorenzo é também um dos meus jogadores preferidos do plantel. É uma equipa que tem muita criatividade e todos eles, nas diferentes posições, trazem muita imaginação ao jogo”, perspectiva o comentador da Antena 1, Eleven Sports e SIC.

lin goleou por 4-1 nas 2 primeiras jornadas da Bundesliga 23/24 ]

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O Union vai trilhando o seu caminho com um trajecto ascendente e sustentado, bem vincando na forma agressiva e positiva com que joga. Diogo Leite vai regressar à Pedreira com o moral revigorado, ele que é umas peças do 1x3x4x3 habitualmente escolhido por Urs Fischer. Com o incremento dos milhões da Champions, o clube realizou um investimento considerável, apetrechando o plantel com os ingressos, entre outros, de Bonucci, Gosens, Tousart, Aaronson ou Volland, por exemplo.

[ O português Diogo Leite e o alemão Robin Gosens são duas das principais figuras do Union Berlin ]

O futebol “rock & roll” dos germânicos poderá causar estragos se estiver bem oleado, já que o Union procura, muitas vezes, “partir” o jogo com o objectivo de evidenciar as principais características da equipa, a profundidade, largura e ataques rápidos e eficazes à baliza contrária. Em contrapartida, este tipo de futebol acaba por expor muito a linha mais recuada, havendo notórias dificuldades em baixar o ritmo do jogo, controlando-o com a bola de forma mais harmoniosa.

[ A forma de jogar do Union: conduções progressivas/dribles/faltas sofridas (esq.) e acções defensivas na Bundesliga 23/24 ]

“O Union tem vindo a reforçar-se dentro da ideia de jogo de Urs Fischer com elementos que vão trazendo mais qualidade, fiabilidade àquilo que é a proposta de jogo. A chegada de Kevin Volland poderá ajudar a transformar a equipa no espaço mais adiantado, o empréstimo do Aaronson é também um acrescento de criatividade muito interessante para este conjunto, o mesmo sucede com Fofana. Diria que há uma passagem de nível desta equipa alemã para algo mais elevado, o que torna a vida do Braga bastante difícil”, afirma Luís Cristóvão à GoalPoint.

Em suma, numa primeira instância, serão diminutas as possibilidades de o Braga voar em direcção aos oitavos-de-final. Real Madrid e Napoli são naturais candidatos a ocuparem as duas primeiras vagas do grupo e o Union ocupa uma segunda vaga, mas no futebol não há impossíveis e a turma minhota nada tem a perder. Se estiver unida a defender, Al Musrati, Bruma, Abel Ruiz, Ricardo Horta e companhia podem desequilibrar e contrariar em qualquer partida.

Leonel Gomes
Leonel Gomes
Amante das letras, já escreveu nos jornais A Bola, Público e o O Jogo, dedicando-se também ao Social Media Management desde 2014. Tornou-se GoalPointer na "janela de mercado" do verão de 2019.